sábado , 21 outubro 2017
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Uma grande história de tradição familiar no exercício da medicina.

Uma grande história de tradição familiar no exercício da medicina
Poucos conhecem essa história que será relatada a seguir e que foi vivenciada em nossa cidade. Apesar da reduzida quantidade de linhas deste efêmero texto que exigiu elaborar um relato demasiadamente sucinto, não é qualquer história que será aqui contada. Ainda que o texto seja breve a história a ser narrada é de elevada grandeza e merece ser conhecida pelas pessoas que residem em nossa cidade e região. Pode-se dizer que se trata de uma verdadeira saga, isto é, de uma genuína história de tradição familiar.


Então vamos ao relato: “Era uma vez…”, espere… vamos começar pelos dias atuais.
Hoje Campo Mourão é uma cidade desenvolvida e conta com uma considerável estrutura de hospitais, postos de saúde, laboratórios, farmácias e uma variedade de clínicas médicas que atendem uma vasta gama de especialidades. Desde hospitais, centros cirúrgicos para procedimento de elevada complexidade, pronto atendimento, até exames de maior precisão podem ser realizados em nossa cidade, além do significativo número de médicos que atendem às diversas especialidades da medicina… porém nem sempre foi assim. Houve uma época em que a realidade era bem diferente e muito sofrível para população da região que precisava de atendimento médico hospitalar.
Nos idos de 1960, Campo Mourão contava apenas com uma escassa e precária estrutura para atendimento de pacientes na área da saúde. Havia apenas dois locais para atendimento, sendo que as estruturas eram de madeira e em péssimas condições para procedimentos cirúrgicos. Além da falta de estrutura, também não havia profissionais médicos para atender todas as demandas.
Naquela época a extração de madeira era uma das principais atividades econômicas de toda região e dentro de um raio de 150 km, Campo Mourão mesmo tendo uma estrutura débil e insuficiente era o único município habilitado para atender às necessidades médicas e hospitalares. Esta era uma dura realidade para população de toda região que precisava de atendimento na área da saúde. Além disso a chance de melhorar tal situação estava muito longe de acontecer, pois a conjuntura política da época não oferecia condições de investimento para transformação dessa realidade.
É dentro deste contexto que inicia a história da saga do jovem médico, Cleso Lopes Nogueira.
Há 55 anos, esse médico paulista, de apenas 33 anos, veio visitar, juntamente com sua esposa, alguns parentes dela que moravam em Campo Mourão. Chegando aqui, ao se deparar com a realidade da região em relação às péssimas condições de infraestrutura médico-hospitalar, tomou uma decisão que iria mudar completamente a história do atendimento médico hospitalar de nossa cidade. Em busca de novos desafios e com uma mente visionária, decidiu abrir mão da vida profissional que estava construindo no interior de São Paulo para investir aqui nesta região, mesmo com todos os obstáculos e dificuldades que sabia que teria que enfrentar.
Mudou-se para Campo Mourão, trazendo sua família, sempre com o apoio de sua esposa, que também, em um ato de coragem, assumiu os riscos de recomeçar a vida em terras estranhas. Talvez o leitor não compreenda a razão de dizer “ato de coragem”, mas cabe aqui uma explicação. Sair de uma cidade já organizada do interior de São Paulo, onde já havia uma estrutura social, política e econômica e vir para o interior do Paraná, para uma cidade de apenas 15 anos de emancipação, sem asfalto, sem infraestrutura, com 4 filhos pequenos para acompanhar o marido em seus projetos profissionais, precisa sim ser corajosa, pois não são poucos os desafios para as mulheres que escolhem apoiar seus maridos em busca de desafios profissionais.


O jovem médico Cleso Lopes Nogueira, havia se formado na Faculdade de Ciências Médicas do Rio de Janeiro e se especializado em Cirurgia Geral, que naquela época já era um grande feito para um jovem vindo de uma família de classe média do interior de São Paulo. Ao iniciar seus trabalhos em Campo Mourão teve que se adaptar às precárias estruturas, pois a cidade não oferecia condições para executar procedimentos mais complexos e nem cirurgias de grande porte, era possível apenas realizar atendimento clínico e pequenas incisões cirúrgicas.
Quando um homem é dotado de sonhos, não consegue se conformar com a situação como ela se apresenta. O jovem médico decidiu mudar a realidade da cidade, construindo um hospital que pudesse oferecer condições adequadas para os atendimentos das demandas hospitalares. A grande questão aqui não é a simples decisão de construir um hospital, mas construir um hospital sem ter os recursos financeiros necessários para tal. O primeiro hospital de Campo Mourão, com centro cirúrgico para realização de procedimentos de grande porte nasceu da ousadia desse jovem médico que, visionariamente, se uniu em sociedade a outros médicos: Dr. Serafim Portes Rocha, Dr. Germano Traple e Dr. José Luiz Tabith, para realizar esse grande feito. A construção foi realizada em etapas, sendo que na primeira fase, construiu-se um pavilhão com um centro cirúrgico.
Com isso surgiu a necessidade de um médico anestesista para realização das cirurgias, pois a cidade não tinha todos os profissionais necessários e qualificados para compor a equipe cirúrgica. Este foi outro desafio: montar a equipe de profissionais, em virtude da dificuldade de encontrar médicos especialistas. O Dr. Serafim, que era médico pediatra e um dos sócios foi obrigado a viajar para São Paulo com o objetivo de fazer o curso de anestesia. Isso tornou possível a realização de cirurgias de abdômen, ginecologia e obstetrícia, dando início à história de Campo Mourão como Centro Médico da região.
O Hospital e Maternidade São José passou a ter uma excessiva demanda de atendimento e, em pouco tempo, foi necessário realizar a ampliação da estrutura para poder atender o grande fluxo de pacientes que vinham de toda a região. Na segunda etapa da obra foi construído um grande centro cirúrgico, mais equipado e atualizado, além de ampliar as estruturas dos leitos, enfermaria, cozinha, lavanderia e toda infraestrutura de um grande hospital.
Contando dessa forma, tudo parece ter sido um processo tranquilo, fácil e simples, mas se engana aquele que pensa dessa forma. Para erguer uma estrutura hospitalar nos dias de hoje é algo complexo, o leitor pode tentar imaginar como foi desafiador há 55 anos.
É fácil compreender que com a construção dessa estrutura hospitalar, que na época se destacava por ser moderna e principalmente pela escassez de estruturas hospitalares em toda região, muitos profissionais começaram a vir para Campo Mourão, além de atrair outras estruturas como farmácias, laboratórios e clínicas médicas.
Com o passar dos anos alguns médicos da família também vieram se juntar ao pioneirismo do Dr. Cleso: o Dr. Moacir Ciulla Porciúncula, a Dra. Clotilde de Mello Porciúncula e oDr. Walter Batista dos Santos Junior. Logo mais tarde foram chegando mais médicos com especialidades diversas como ortopedia, oftalmologia entre outras, transformando Campo Mourão em um importante Centro Médico.


Anos mais tarde, com a chegada dos seus três filhos médicos, Heráclito de Mello Nogueira, Cleso Lopes Nogueira Filho e Glauco de Mello Nogueira deu-se continuidade à tradição da medicina na família Nogueira.
No ano de 1964, inaugurava em nossa cidade o Hospital e Maternidade São José, iniciando uma revolução e inovação no atendimento da população na área da saúde, graças ao sonho de um homem que, além de exercer brilhantemente sua profissão de médico, também destacou-se pela ousadia, criatividade e principalmente pela determinação de levar à frente um sonho audaz.


O Dr. Cleso de Lopes Nogueira foi o primeiro cirurgião a realizar procedimentos de grande intervenção em nossa cidade, porém não é só esse o legado que ele deixa para história. Deixa principalmente uma história familiar de tradição médica guiada pela ética profissional, em que três de seus filhos, herdeiros diretos, dão continuidade à profissão de médico e agora quatro netos seguem o caminho da medicina mantendo a tradição familiar.
O Hospital e Maternidade São José encerrou suas atividades no ano de 2005. Hoje a estrutura do edifício abriga a Secretaria de Saúde do Município, porém parte de sua história é renovada e sua chama se mantém acesa através da Clínica São José, onde os filhos e netos do Dr. Cleso Lopes Nogueira e da Dona Therezinha de Mello Nogueira continuam atuando como profissionais da Saúde.

Por: Manoel Teixeira Junior

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