Um Conto de Natal

João e Maria eram filhos de famílias numerosas e quando se casaram pretendiam também ter muitos filhos. Quando se casaram cuidaram de construir uma casa grande que pudesse abrigar a família que pretendiam ter. Como o pai de João trabalhava com madeira, optaram por construir uma casa de peroba rosa e óleo pardo, madeiras resistentes, pois desejavam que ela durasse muitos anos. Quando a casa ficou pronta, muitos paravam para admirá-la, pois era uma bela casa. O que chamava a atenção era seu estilo chalé, com teto de madeira rebaixado e muito espaçosa. Os amigos diziam que era um exagero uma casa daquele tamanho pra um casal, mas João e Maria apenas sorriam, pois imaginavam aqueles cômodos, ora silenciosos e tranquilos, pleno dos ruídos e da alegria da infância, com os filhos que pretendiam ter. Ao desenhar a casa, Maria planejara uma sala espaçosa que pudesse abrigar uma grande árvore de Natal e um presépio, no período natalino. Até já imaginava crianças de olhos iluminados pelo cenário que gostaria de ali organizar.


A saúde de Maria, no entanto, não lhe permitiu ter mais do que quatro filhos, e tão próximos uns dos outros, que o caçula nasceu no mesmo mês que a mais velha completou seis anos. O casal já tinha três meninas quando o menino nasceu, completando a alegria da família.
Romântica e ingênua, Maria tinha pressa em ter filhos, pois achava que o Natal só é completo com a presença e a alegria das crianças. Mãe coruja, adorava o mês de dezembro. Foi com imensa alegria que, ao engravidar pela primeira vez, comprou uma gigantesca árvore de Natal e muitas caixas de bolas coloridas, faixas douradas, e conjuntos de iluminação do tipo pisca-pisca.
Queria fazer da árvore de Natal uma tradição familiar, acrescentando-lhe a cada ano uma nova peça que tivesse um sentido histórico para a família. E comprou também um presépio de gesso de muitas e belas peças.
Queria que os filhos aprendessem a amar a tradição do Natal pelo seu significado mais belo de renascimento. Também pretendia presenteá-los com os brinquedos que desejassem e que eles pudessem lhes dar, mas o mais importante era a tradição da família reunida em torno à arvore e ao presépio para aguardar a hora do nascer-renascer anual do Filho de Deus.
Ver os filhos crescerem, acompanhar cada passo de suas jornadas de vida era o enlevo de João e Maria. É claro que nem tudo eram flores: a mais velha era asmática e tinha muitas idas e vindas aos médicos; a segunda nascera com um refluxo gastroesofágico que precisou de muitos cuidados e tratamentos; a terceira tomou medicamentos até o sexto mês por uma monilíase persistente que a impedia de mamar e perdeu muito peso, demorou a ficar curada. O quarto, finalmente, tinha saúde perfeita e nem um trabalho deu, para alívio dos pais já cansados da rotina médico-hospitalar de seus bebês. Era, no entanto, como as irmãs, alérgico à proteína do leite. Os quatro utilizavam um leite de soja denominado de Sobee (que levava quase todo o salário do pai), e até os três anos nenhum deles podia ingerir proteína animal, exceto o leite materno. Alimentá-los era uma tarefa deveras complicada. Pelo menos até os três anos de idade de cada um, quando a dessensibilização já permitia alimentá-los normalmente.
Nesta época a contagem do tempo na família era marcada pelas primeiras palavras de um dos bebês, pelos primeiros passos de outro, pela queda dos primeiros dentes decíduos de algum deles, etc.
Finalmente, todos falavam ao mesmo tempo, todos queriam colo, carinho, aconchego, e João e Maria sentiam que tinham uma família: barulhenta, ruidosa, trabalhosa, mas, enfim, uma família.
E as tradições foram sendo desenvolvidas: as noites de histórias infantis, a Igreja aos domingos, o revezamento dos almoços na casa dos avós maternos e paternos, os domingos de almoço na churrascaria, as tardes de sol na piscina do clube, a escola, a descoberta dos livros do pai e da mãe, as tardes de leitura em casa, os Natais em família, a ajuda na organização da árvore e do presépio, as férias na praia, etc. Tudo era formação e crescimento.
Os Natais se tornaram mais alegres com João e Maria observando o brilho nos olhos de cada um ao ver a árvore brilhar com as luzes pisca-pisca, ao colocar o bebê Jesus na manjedoura e receber o presente desejado. Os pedidos eram levados tão a sério pelos pais, que houve um ano em que cada uma das filhas ganhou sua própria vitrola portátil.
Para que tantas vitrolas, questionavam os avós. Uma só não servia pra todos? Não poderiam comprar uma vitrola só para a casa?
“Não,” respondia Maria que conhecia bem as filhas. “A hora em que cada uma quiser ouvir um disco diferente, num local diferente, teremos problemas. Como cada uma pediu uma vitrola de presente de Natal, o melhor é atender a todas, ou não atender a nenhuma delas. Se comprarmos uma vitrola só, duas das filhas sentirão que não foram contempladas em seus pedidos. E, como cada uma gosta de ter sua privacidade em algumas horas do dia, cada uma pode utilizar a vitrola da forma que desejar. Além disso, elas precisam ser responsáveis pelas suas coisas.”
Maria era exagerada quando se tratava de atender aos pedidos dos filhos, mas quanto às vitrolas ela estava certa.
E o tempo voou! Quando João e Maria se deram conta, muitos natais haviam passado e a filha mais velha se mudara pra outra cidade pra cursar Universidade; um ano depois, a segunda, depois a terceira e finalmente, o filho se foi para outra cidade para estudar.
E a casa se tornou vazia e silenciosa durante a semana. Mas no sábado à tarde a alegria retornava, com todos voltando pro final de semana. A casa se enchia de jovens, de música de conversas e risos, com os amigos chegando pras visitas. O café da tarde era servido pelo menos duas vezes pra atender a todos.
E os Natais eram sempre planejados em grupo pela família: um ano na casa da avó materna, outro ano na casa da avó paterna, um ano em casa, com muitos amigos. Logo chegaram os namorados e as namoradas, o que aumentou o número de pessoas ao redor da árvore de Natal, do presépio e da mesa.
Natais, festas de aniversário, reuniões de amigos, feriados festivos…. E o tempo voou novamente.
Concluído o curso universitário, cada uma das meninas já sabia que caminhos desejavam trilhar.
Primeiro a filha do meio fez as malas e foi trabalhar em um outro país, em seguida a mais velha e, finalmente a terceira filha também se mudou para o exterior. Vinham visitar a família todo ano, mas não conseguiam fazê-lo no período do final de ano. Cada uma vinha em uma época diferente e passava o Natal sozinha na região do mundo onde vivia.
O filho tinha seu grupo de amigos e viajava com eles nos finais de ano para as festas de Natal e Ano Novo.
E a síndrome do ninho vazio chegou!
Com a casa vazia da presença dos filhos, os Natais ficaram menos alegres. Já não havia muita disposição em João e Maria para os Natais maternos e paternos.
O filho caçula se casou e logo o primeiro neto de João e Maria chegou. Um belo garotinho a quem agora poderiam amar e mimar. E a pequena família do filho agora também se dividia para as festas de Natal: um ano na casa dos avós paternos, outro na casa dos avós maternos. Isso ajudou a controlar, de certa forma, a síndrome de ninho vazio de João e Maria.
Cumprido o contrato de trabalho no país onde fora viver, a filha do meio retornou. Trazia o namorado a tiracolo para conhecer seus pais e ter a sua aprovação para o casamento. Seis meses depois se casaram no Brasil, antes que retornassem ao país de origem do jovem.
Um ano depois a filha mais velha retornou de surpresa, na semana do Natal. Ela também trouxe o namorado para conhecer João e Maria. Oito meses depois João e Maria seguiam pro país estrangeiro para o casamento desta filha. O mesmo ocorreu com a terceira filha. Todas se casaram com rapazes de outros países e lá vivem com suas famílias.
Três anos depois do casamento da filha do meio, veio a neta, uma garotinha linda de belos olhos azuis, como seu pai. A família aumentara, mas o trabalho das filhas em países estrangeiros não lhes permitia passar os Natais com os pais.
O início deste novo processo de ter a família tão distante foi difícil para João e Maria. Mas em pouco tempo o desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação à distância, permitia que pudessem ver-se e conversar o tempo que desejassem.
E as filhas passaram a organizar-se e coordenaram para que suas férias pudessem ocorrer no mesmo mês do ano, de forma que pudessem vir todas juntas ao Brasil para visitar os pais. João e Maria resolveram que a antiga casa de madeira onde viviam há quarenta anos, agora era pequena, pois quando a família chegava não havia como hospedá-los confortavelmente. Resolveram vendê-la para comprar um apartamento grande, que acomodasse a todos. E, numa noite próxima ao Natal, sem nenhum ânimo e triste pela sensação do ninho vazio, Maria escreveu um anúncio de venda para o jornal local:

ANÚNCIO

Vendo uma casa velha,
de madeira de lei,
extraída da mata
que cercava a cidade
em tempos remotos.
É de peroba rosa
com vigamentos de óleo pardo.
Madeira escolhida a dedo
por competentes carpinteiros.
Bem dividida,
tem uma grande sala
onde muitas festas e reuniões
alegraram nossas vidas.
Aí aconteceram aniversários felizes,
natais iluminados pelos risos de crianças.
Horas de descansos,
horas de desalentos,
Fotografias memoráveis,
encontros encantados.
A velha varanda adaptada em cozinha
cheira a café da manhã,
pão quente, bolachas de coco, bolachas
dedo-de-moça, pão de queijo, bolo de chocolate
e bolinhos de chuva.
Suas paredes ainda guardam o perfume
dos churrascos e feijoadas
dos feriados e dias de festas.
Se você se demorar aí um pouquinho que seja
sentirá o cheirinho do arroz
e do feijão do cotidiano,
da polenta recheada, do macarrão ao molho branco
e do pão nosso de cada dia.
Aí passamos manhãs e tardes
preparando os bolos de inúmeros aniversários,
as sopas e os caldos do inverno,
e as saladas do verão.
Frango frito empanado,
frango desossado, assado,
mousses, panquecas,
lasanhas,
manjares, pudins e outras delícias que
enfeitaram nossos dias.
Há também uma antiga cozinha
transformada em copa.
Com uma mesa e oito cadeiras,
já acomodou tranquilamente
25 pessoas ou mais,
e se enchia de alegria nos almoços
e jantares dos dias comuns.
E de amigos, jogos, sorrisos e festa
todos os finais de semana.
Há quatro quartos,
Um deles transformado em biblioteca.
Suas paredes preciosas, cercadas de estantes,
carregam a história da nossa vida e aprendizagem.
Cadernos de escola de nossos filhos,
seus álbuns de papéis de carta, suas cartilhas e
primeiros livros de leitura escolar,
assim como a primeira literatura não escolar.
Suas primeiras provas e outras avaliações.
Bilhetes de amigos,
Cartinhas trocadas entre namorados,
Cartões de natal,
Discos de MPB, rock, blues, jazz,
de canções inesquecíveis, de histórias infantis
de sons da infância, adolescência e juventude.
Filmes memoráveis em VHS e em CDs.
Livros, milhares deles,
de capas coloridas, cinzentas, pretas, brancas.
De todos os matizes e cores elas escondem conteúdos que
nos fizeram sonhar, rir, sofrer, chorar, viajar, crescer, crer, duvidar,
refletir, aprender e se transformar.
Os demais quartos guardam em suas paredes
os risos e choros da infância de nossos filhos,
os sonhos de sua adolescência,
os amores de sua juventude,
os risos de seus e de nossos amigos,
e as lembranças de como cresceram e
e se transformaram em quem são.
Os quartos são alinhados por um corredor
cujo assoalho serviu de ringue pra muita patinação infantil
em meias de lã.
Há um quintal que já foi de terra-chão,
Foi gramado, com uma caixa de areia
que serviu às brincadeiras e diversões
infantis.
E hoje é calçado com lajotas
Onde nossos passos já não ficam marcados,
Mas por onde nossa essência ainda caminha,
acompanhada ou não de nossa presença física
ou de nossa imaginação, e das lembranças de como nos constituímos
pessoas e família, nos espaços marcados
por essas paredes, tanto as abertas do quintal, quanto as fechadas,
dos cômodos interiores desta casa perene em nossas memórias e sentimentos.
Para completar, esta casa é cercada de varandas,
onde descansaram nas tardes ensolaradas
os carrinhos dos nossos bebês e cujos pilares
sustentaram o balanço de redes,
nas quais crianças felizes
dormiram e sonharam.
Aí passaram muitas tardes
em diálogos e brincadeiras com os primos,
os amigos e os irmãos;
brincaram de pique esconde,
soltaram e perseguiram bolhas coloridas de sabão
e ouviram histórias, sentados em cadeiras
de descanso.
Na calçada em frente a estas varandas,
as pétalas das flores de um lindo
flamboyant, coloriram e ainda colorem
de vermelho o caminho
da entrada,
enquanto seus galhos sombreiam
e refrescam as tardes quentes da primavera
e do verão.
É uma boa e bela casa.
João dormia. Feito e postado o anuncio, Maria caminhou pelos cômodos solitários de sua casa. Fechou todas as cortinas, verificou as portas, fechou-as também, ligou o sistema de alarme e, finalmente, encaminhou-se até a sala, sentou-se na ampla poltrona cinza, sua preferida, e calmamente abriu uma garrafa de vinho, vertendo o conteúdo na taça translúcida. Observou por algum tempo o vinho na taça. Ia tomar o primeiro gole, mas desistiu. Levantou-se, apanhou a taça e caminhou até o amplo espelho do corredor, olhou para seu rosto magro e tranquilo, ergueu a taça e disse: “tin-tin, Maria! Um brinde à vida que nos resta, e às memórias da que até então vivemos!” E seus olhos se encheram de lágrimas, quando, repentinamente, vindas do fundo do espelho no qual se mirava, ela viu refletidas as lembranças de gratas memórias que narrara no anúncio: o som de risos e conversas alegres, que enchiam a sala, e sua voz, que ecoava alta e firme, como sempre fora: “a mesa está posta! Venham crianças! Venha João!” Mas todos relutavam em deixar a sala, olhando embevecidos para a árvore de Natal carregada de bolas coloridas e outras peças, cujo significado todos conheciam e sob a qual estava instalado o presépio. E, no cimo da montanha, montada por Maria sobre uma caixa grande de papelão encapada com papel Kraft, pintado à mão para dar o formato de uma estrebaria e seu entorno, um belo anjo de diáfanas vestes azuis parecia realmente anunciar a chegada do Filho de Deus, enquanto os pastores, Reis Magos e animaizinhos se prostravam ao lado da manjedoura para admirar a maravilha do seu nascimento-renascimento.
Maria ficou absorta vendo suas lembranças refletidas no espelho, esqueceu até a taça de vinho que trazia na mão.
Faltavam apenas duas semanas para o Natal e ela não se animara a montar a sua árvore e o seu presépio naquele ano. Estava triste, de uma tristeza saudosa das filhas, dos genros e da neta. O filho e o neto passariam o Natal na praia. Mas, quando as lembranças dos dias alegres e felizes que a família vivera nos muitos anos em que todos estavam em casa afloraram, Maria tomou-se de ânimo e alegria. Correu buscar no armário da despensa as caixas nas quais guardava seus tesouros: a árvore, seus enfeites e o presépio.
Foi desembrulhando delicadamente cada item até tê-los todos ajeitados no sofá grande da sala. Em seguida montou a árvore, que chegava quase até o teto e feliz pôs-se a organizá-la. Os filhos não estariam ali, mas a tecnologia permitia que ela pudesse acessá-los e mesmo pela rede eletrônica poderiam estar juntos na noite de Natal. Valia cumprir a tradição, mesmo à distância.
Terminada sua tarefa com a árvore e o presépio, Maria lembrou-se do anúncio, mas mudara de ideia. No dia seguinte diria a João que não queria trocar a sua velha casa cheia de recordações por um apartamento. Talvez pudessem comprar uma casa maior. Mas não poderiam vender aquela. Correu ao computador, ligou e postou sobre o anúncio a seguinte mensagem:

Ao redigir este anúncio,
percebi que não posso mais vender a minha velha casa de madeira.
Suas paredes já não são madeira apenas,
se transformaram em pergaminhos preciosos,
cujas marcas são textos, fotografias, registros diversos
da história de muitas vidas.
Assim como ela nos acomodou em seu interior, confortável e solidária,
nós assimilamos seus contornos em nossas vidas e história.
Sem suas paredes plenas de memórias,
já não seremos os mesmos.

FELIZ NATAL A TODOS!
Que o Menino que renasce seja fruto de muita alegria e esperança em todos os lares e famílias.

Dirce Bortotti Salvadori, escritora.
É membro da Academia Mourãoense de Letras.
dbsalvadori@hotmail.com

Check Also

“Mais Médicos”, de novo…

Geórgia Coletty Falar sobre o “Mais Médicos” ficou difícil, chato e sem graça. Era uma …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.