TEMPOS & TEMPOS

MÃES MOMENTO DE GRATIDÃO E HOMENAGENS
4 de julho de 2019
Homem enfrenta pena de até 219 anos por contrabandear chips para a China
4 de julho de 2019

TEMPOS & TEMPOS

Cida Freitas

Lembro-me como se fosse hoje dos tempos de outrora. Família grande, todos começavam a trabalhar muito cedo. Eu comecei aos treze anos, meu irmão também. Era normal naquela época, mas nem por isso deixávamos de estudar. Na verdade, fiquei durante um ano afastada da escola para poder trabalhar, mas ao completar quatorze anos passei a estudar à noite para trabalhar durante o dia, inclusive aos sábados, até a hora em que houvesse clientes na loja. No domingo, único dia que me restava, ajudava nas tarefas de casa. Depois do almoço, eu tirava para brincar com minhas amigas: pular corda, conversar sobre nossos sonhos, comentar sobre nossas frustrações de adolescente, íamos aos sítios da redondeza, a pé, com a desculpa de buscar frutas, mas era mais para estar junto do grupo.
Como nasci em 1950, aos quatorze anos eu vivi o movimento de 1964. Meus pais ficavam ansiosos, falava-se em guerra e eu morria de medo. Na escola, o assunto era meio proibido, a professora de OSPB comentava sem dar opinião.
Mas, tudo se acomodou e vi os militares no poder. Ordem e progresso era o que mais se ouvia e a escola passou a levar a sério o “Momento Cívico”. Foi a época do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Essa frase causou furor em alguns, que a exemplo de hoje, falavam mal de tudo, criticavam o País, mas queriam ficar. Um direito, não é? Mas quem quer direitos precisa cumprir deveres, certo?
Os anos foram passando e a “liberdade” que se queria foi ganhando força. Sem questionar, sem entender, os jovens foram se enfileirando em prol de uma democracia que desse total liberdade aos brasileiros.
Com a opinião pública a favor, os pseudos- brasileiros, “vítimas” do sistema conseguiram derrubar o governo militar e então se assentar no “trono”. Tudo parecia bem, a vontade do povo foi satisfeita.
Nós, os brasileiros, dormimos um sono tranqüilo porque o Brasil passou a ser o país livre da força militar, todos podiam fazer o que bem quisesse, virar a noite nas festas, fazer sexo à vontade, os valores patrióticos foram deixados de lado porque, cantar o hino nacional, respeitar os símbolos nacionais era coisa de militar, então não podia.
O tempo foi passando, os frutos de um tempo de libertinagem só apareceram bem mais tarde:
filhos sem pai, violência, educação superficial, pessoas chegando ao Ensino Superior sem saber escrever, movimento pró-aborto, presos com todas as regalias, salário por estarem presos, visitas íntimas, celulares nas celas que ninguém sabia como passavam; presos comandando milícias…
E o brasileiro trabalhador, honesto, sendo obrigado a pagar todas essas farras com seu suado salário. Se atrasar um dia o imposto, a multa e os encargos fazem um buraco em seu orçamento. Se quiser escola de qualidade, precisa pagar porque as públicas, embora muitos professores se dediquem e deem tudo de si pela missão que escolheu, esbarram no sistema viciado e falido que não mira na qualidade, mas nos números de aprovação ainda que no meio dos aprovados estejam muitos que deveriam ser reprovados.
Se quiser atendimento à saúde com um pouco de dignidade, precisa pagar porque o sistema público de saúde não oferece condições de trabalho aos profissionais:
falta estrutura física nos hospitais, faltam medicamentos, faltam pessoas capacitadas para os serviços, falta tudo.
Se quiser ter segurança em casa, é preciso colocar cerca elétrica, pagar monitoramento e assim mesmo as pessoas se sentem inseguras devido à quantidade de assaltos, roubos e arrombamentos que a mídia não se cansa de mostrar.
De repente a “ficha cai” e se percebe que aquela liberdade de que se falava tinha outra cara e outra intenção. Abriram-se portas para um futuro que não queríamos experimentar, mas agora estamos nele.
Só então fomos pesquisar quem eram aquelas “vítimas do sistema” que afrontaram os militares e assumiram o poder.
Que decepção! Não eram jovens sonhadores, românticos que queriam um país igual para todos. Eram baderneiros, assaltantes de banco e até assassinos… E agora?
Agora, minha geração que ajudou a derrubar os militares pede a volta deles para que se restabeleça a ordem, para que nossas crianças sejam protegidas dos malfeitores, para que todos possam ter acesso à escola pública de qualidade; para que a saúde seja prioridade; para que os presos cumpram sua pena sem vantagens e, após se reintegrem à sociedade como pessoas de bem; para que se lute pelo direito à vida e não para matar inocentes gerados pela insensatez e irresponsabilidade dos incautos; para que sociedade possa respirar sem medo.
Com isso aprendi que quando alguém fala: “Política não se discute”, tenho que responder: Política não apenas se discute, estuda-se, participa-se. Caso não seja assim, o tempo mostrará o preço da omissão, do comodismo, da ignorância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.