terça-feira , 22 Maio 2018
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Sociedade é o indivíduo ou o indivíduo é a sociedade?

Em Sociologia, sociedade é definida como o conjunto de indivíduos que compartilham costumes e propósitos e convivem de forma organizada. A origem da palavra sociedade vem do latim societas, uma “associação amistosa com outros”, já Societas é derivada de socius, que significa “companheiro”.


O conceito de sociedade implica que seus membros compartilhem interesses em comum e preocupação mútua além de se submeterem a mesma autoridade política, leis e normas.
Se analisarmos o homem sob o prisma da biologia animal, observamos que a sociedade é essencial á sua sobrevivência como espécie. O Homem é único animal que altera o meio ambiente para sua própria sobrevivência.
Por outro lado, o ser humano também é um dos animais mais frágeis e desprotegidos da natureza. Somos seres dependentes, precisamos ao longo da vida sempre de alguém ao nosso lado para sobrevivermos.
O crescimento é um processo lento e constante que dura praticamente toda a vida, além disso, necessita sempre da participação de outras pessoas, pais, familiares, amigos, professores, colegas, líderes enfim, nos tornandos dependentes ao longo da vida de outros indivíduos que já tenham se desenvolvido e aprendido.
E essa dependência dura a vida toda.
Enquanto a maioria dos mamíferos aprende a andar alguns minutos após o nascimento, nós demoramos quase um ano. Somente após algumas semanas de vida conseguiremos nos virar sozinhos na cama.
Mesmo adulto, o ser humano não consegue sobreviver sem estar rodeado de outros indivíduos da espécie. Essa associação é necessária e baseia-se num conceito simbiótico que possibilita a satisfação de suas necessidades. Partindo-se da premissa que ninguém possuí todos os talentos, competências e habilidades necessárias à sua sobrevivência ao nos unirmos conseguimos usufruir daqueles talentos, competências e habilidades existentes no grupo.
Para isso cada sociedade se encarrega, à sua maneira, de cuidar da formação dos indivíduos, auxiliar no desenvolvimento de suas capacidades físicas e espirituais, prepará-los para a participação ativa e transformadora das várias instâncias da vida social.
A partir do momento em que o homem nasce até o momento em que morre, ele absorve uma série de conceitos da sociedade que o ensinam a guiar-se pela mesma. Estes conceitos, de uma forma geral, consistem em ideias que ao longo do tempo vão formando o caráter, os valores e as crenças da pessoa, influindo assim em todas as suas decisões, dizendo-lhe o que sonhar, o que respeitar, o que repudiar, o que vestir, como se comportar ou mesmo o que dizer.
Com a globalização, os diversos conceitos sociais estão se encontrando, alguns se adaptando outros divergindo e alguns sendo atropelados pelo atual imediatismo de resultados. Com certeza, muitos conceitos se perderão e cabe a cada um de nós não permitir que isso ocorra.
A atual sociedade do consumismo e do imediatismo valoriza, sobretudo, os bens materiais. O que importa é vencer na vida sem ter que “suar a camisa”. Na teoria, afirma-se que a educação é prioridade, mas, na prática, há uma procura pelo fácil que proporcione o prazer imediato. Estudar, se formar em um curso superior, não é fácil nem imediato. Não é difícil perceber que as novas gerações desvalorizam o saber e os sucessos acadêmicos e se deixam seduzir pelos sonhos do enriquecimento fácil, da fama e do poder.
Mas essa inversão cobra um alto custo. Nas últimas décadas, os veículos de comunicação de massa identificaram e, de certa forma, promoveram algumas doenças psíquicas como verdadeiras epidemias mentais: síndrome do pânico, estresse, anorexia, bulimia e, mais recentemente, a depressão.
O consumo é um dos principais fatores do aumento da depressão, o valor das pessoas tem sido medido, erroneamente, cada vez mais, pelo que elas podem consumir e ostentar, e mesmo assim não as deixa imunes àquela sensação de vazio que esse ideal imprime. Existe uma valorização exacerbada do “ter” em detrimento do “ser”.
Levando assim as pessoas há um constante processo de anulação retroativa.
Anulação retroativa é o mecanismo psicológico conhecido pelo qual a pessoa se esforça por fazer com que pensamentos, palavras, gestos e atos passados não tenham acontecido; utiliza para isso um pensamento ou um comportamento com uma significação oposta.
As pessoas negam e não reconhecem seus erros, impedindo com isso o próprio aprendizado e crescimento. Buscando um arquétipo de perfeição inexistente.
Campanhas propagadas pela indústria farmacêutica transmite a ideia de que podemos “burlar” o sofrimento através da “medicalização”, basta tomar a pílula da felicidade ou sexual para retomar o caminho rumo à utopia da felicidade constante, prazer sexual ilimitado e a juventude eterna. Ideais inalcançáveis na vida real, tornando-nos assim escravos sociais.
Atualmente vivemos sob o imperativo da felicidade, sucesso e do prazer constantes gerando uma corrida impossível de se vencer no dia a dia, levando ao desânimo e a frustração em atingir tais objetivos coletivos.
O indivíduo desintegrou o sistema social. Acabou aquela hegemonia social do século XX: Ou ele se encaixa ou é excluído.
Estamos vivenciando a era do individualismo onde as pessoas começaram a se desvencilhar das marcas e das determinações da tradição, da educação, da religião e da família. O paradoxo atualmente é que isso, que antes era considerado algo subversivo em relação à realidade social prévia, virou a norma, a ideologia dominante. Todo mundo precisa ser indivíduo e ser singular.
As pessoas vivem numa cultura de desrespeitar cada vez mais a princípios, normas, valores, etiquetas e ideais. O que impera é a vontade, eu quero, eu posso, eu faço! Isso explica a falta de escrúpulos na ruptura de valores éticos sem grandes danos à consciência.
Como diz o ditado popular, a ocasião faz o ladrão.
Nunca existiu na história da humanidade uma época onde pudéssemos ser tão livres quanto nos dias de hoje para fazermos as nossas próprias escolhas. Mas toda essa autonomia trouxe um dilema. Num mundo onde todos podem ser autônomos, onde suas escolhas determinam seu destino, as pessoas começaram a sentir o peso da responsabilidade e assim passou a se sentir insegura e desamparada, precisando da ajuda de alguém que diga o que deve fazer e qual é a escolha certa.
Um prato cheio para os gurus de plantão, que alardeiam aos quatro cantos soluções e caminhos fáceis e rápidos para enfrentar tal situação. Observe como são cíclicos os modismos comportamentais: todo ano surge uma nova publicação prometendo a solução dos seus problemas, e você mais uma vez acredita. Há o exemplo das pílulas da felicidade que são apenas medidas paliativas ineficazes á longo prazo.
Observe as receitas populares para gripe, calvície, obesidade, disfunções eréteis, dentre outras. Todo mundo experimenta com a famosa desculpa “Vai que dá certo, não custa tentar”. E com isso não escolhe fazer o que precisa realmente ser feito.
Apesar de possuirmos esse poder, temos medo de utilizá-lo e assim voltamos a depender dos outros para nos auxiliar em nossas decisões.
Norbert Elias, sociólogo alemão, afirma que não há sociedade sem indivíduos e, analogamente, não há indivíduos sem sociedade. A história é sempre história de uma sociedade, mas, sem a menor dúvida, de uma sociedade de indivíduos. Norbert questiona o papel do indivíduo e suas possibilidades de influir na mudança social, como lidar com a incômoda figura do indivíduo que possuidor de características especiais, talento e peculiaridade ameaçam transpor as barreiras que limitam a ação do homem singular numa sociedade? A saber, como lidar com a perturbadora figura da condição individual que extrapola os limites do homem comum e avança vorazmente sobre as rédeas da História, tentando influenciá-la decisivamente. O sociólogo estuda o caso dos gênios, considerados a situação-limite da provável influência do indivíduo nos rumos da sociedade.
O que você anda fazendo para abalar o mundo a sua volta e influenciar o rumo da história?
Nada!!! Está apenas seguindo as pegadas dos outros.
Seja um catalisador de mudanças. Se você não mudar o mundo, o mundo vai acabar mudando você.

Pense nisso!

Roberto Recinella, escritor
Contato: rrecinella@terra.com.br

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