sábado , 21 outubro 2017
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SOBRE A INUTILIDADE DAS PALAVRAS.

E ela ficou ali parada olhando para as paredes brancas à sua frente!
Chovia forte, e o som da água caindo no telhado da casa interferia em sua concentração.
Por horas tentara escrever sobre seu pai. Iniciou e reiniciou vários textos. Rasgou folhas e mais folhas de papel, mas nada de aproveitável surgia. Não conseguia se expressar! Sentia-se com a mente vazia, sem inspiração. Não conseguia encontrar palavras que, encadeadas, ajudassem a construir um texto minimamente interessante e que demonstrasse o sentido e o significado que ele tivera em sua vida. Afinal, tratava-se seu pai, o homem em cujo lado crescera e se transformara. O ser humano por quem nutria o maior afeto, respeito e admiração. Aquele que, ao lado de sua mãe, fora sua melhor companhia nos piores e nos melhores momentos de sua vida.
Ela odiava estes brancos, essas ausências de palavras, essa sensação de limite emocional tão tangente, tão forte e dominadora que lhe cassava a capacidade de raciocínio!
Talvez isso ocorresse porque lembrá-lo lhe reavivasse o choque de perdê-lo, de sentir- se sem identidade, afinal ele era a sua identidade. Era seu pai! Será que era por isso? Ou será que era por que ela tinha tanto a dizer sobre ele que não sabia por onde começar?

Shot of a young father reading a book with his daughter

Tantas boas e gratas lembranças da infância, da adolescência, da juventude e da idade adulta.
Bem que ela tentara! Estava com olhos tão cansados de fixar a tela iluminada do computador, que já fora lavar o rosto inúmeras vezes, para descansá-los. Saía do cômodo que lhe servia de escritório, andava pé antepé pela casa silenciosa, ouvindo o ressonar tranquilo do marido, do filho e do neto. Mas nada acontecia, sua mente se recusava a desvendar um ponto a partir do qual o tricotar das palavras lhe permitisse tecer uma narrativa eficiente.
Tentara começar por sua infância, pelas primeiras leituras que, embevecida, ouvira sentada aos seus pés!
Tentara lembrar-se de sua voz alta e pausada, da calma com a qual lia e decifrava para ela cada palavra, como quem as soletrasse para facilitar o entendimento dela. E tentara lembrar ainda que o interrompia a cada minuto com muitas e variadas perguntas. Ela era uma criança curiosa! Ora queria saber como se escrevia uma palavra nova que ele lera, ora queria que ele lhe explicasse o que era um rancho, onde ficava Los Angeles, de onde vinha o nome Califórnia, o que era o México, os Estados Unidos da América, e queria saber tantas coisas mais que a leitura dele avançava a passos lentos, como se no ato de ler, ele escrevesse a história!
E quantos O Coyote ele lera pra ela? Talvez fossem muitos, talvez fosse apenas um! Ela não tinha como nal, o que mais importava na história não era exatamente o conteúdo, era que ele estivesse ali, sentado naquela cadeira, para que ela pudesse sentar- se aos seus pés e observá-lo enquanto lia para ela.
Talvez mais importante que lembrar-se que ele lia para ela, fosse lembrar-se das noites de medo, quando, aos cinco anos, ela insistia em sentar-se ao lado dele na cozinha para ouvir O Incrível, Fantástico, Extraordinário, da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro. Depois não conseguia dormir, lembrando-se das histórias narradas e que os sonoplastas, na sua tarefa de reconstituir o tétrico ambiente que as cercavam, tornavam tão reais e aterradoras. Sempre prometia que não ia mais ouvi-las, mas na quarta-feira seguinte, quando os ponteiros do relógio se aproximavam das nove horas, lá estava ela com os cotovelos fincados sobre o tampo da mesa da cozinha, com as mãos sustentando o rosto, em muda expectativa pela abertura do programa: “e agora, com vocês, o incrível, fantástico, extraordinário”! Nas demais noites a sintonia do rádio transitava entre a Rádio Tupi, a Rádio Mayring Veiga, do Rio de Janeiro e a Rádio Nacional de Buenos Aires, de onde os tangos de Gardel escapavam, tomando conta do pequeno espaço da cozinha.
Mas havia outras lembranças tão importantes! Se as palavras não lhe escapassem, talvez fosse melhor ela iniciar seu texto narrando o quanto gostava de acompanhá-lo, nas vezes em que, aprendiz, ele tentara cumprir as horas de voo necessárias para tirar o brevê! Como ela adorava sentir-se perto do céu e das nuvens, aquelas mesmas nuvens que ela observava quando, nas noites de verão, se deitava na grama para contar as estrelas. Ter um brevê e poder voar todos os dias era um sonho acalentado por ele. Mas ele sabia que, dado o medo de sua esposa, teria que desistir deste sonho. E por mais que isto lhe custasse, custava-lhe mais ainda ferir os sentimentos dela. Esta era uma bela lembrança que ela gostaria de deixar registrada, caso as palavras certas lhe ocorressem. Mas não lhe ocorriam, a fluência para lembrá-lo num texto lhe escapava. Toda e qualquer lembrança era um caminho para iniciar, mas depois não conseguia dar continuidade.
Talvez se deixasse a infância de lado e começasse pela adolescência se tornasse mais fácil escrever sobre ele. Afinal, fora na adolescência que ela começara a trabalhar ao seu lado. Mas o que dizer? Que partes da adolescência escolher? Do seu primeiro namoradinho, quando, numa crise de pai ciumento ele prometeu que lhe daria umas palmadas se ela falasse em namoro com aquela idade? Ou de quando ele convidou todos os seus amigos para comemorarem o aniversário de 15 anos dela, numa festa surpresa? Ou de quando ele foi assistir à sua operação do apêndice e acabou salvando-a de viver uma condição de risco ao ser o único a observar, enquanto todos conversavam aguardando o trabalho do anestesista, que o aferidor da pressão arterial marcava um valor próximo do zero? Ou do momento em que ela acordou da anestesia geral cega, e ele ficou ao seu lado por vinte quatro horas até que sua visão retornasse, para só então retornar ao trabalho?
Bem, ela também poderia escrever sobre ele iniciando pelas lembranças das inúmeras vezes em que o acompanhara nas compras para reposição de estoque da loja que ele administrava. Conversavam tanto nessas ocasiões! Talvez aí houvesse conteúdo o suficiente para mostrá-lo. Afinal era isso que interessava: mostrá-lo, dizer quem ele era e como ele era! Mas será que ela sabia? Ou imaginava saber? Quem era, afinal, aquele homem alto, magro, que ainda com cara de menino já tinha sete filhas e um filho? Quem era aquele homem que se sentava com as filhas e seus amigos nas rodas de violão? Que conseguia acompanhá-los ouvindo uma mesma música vezes sem conta, apenas pelo prazer de estar com eles? Engraçado ela lembrar-se disto, pois junto veio a revelação de que a sensação de solidão não existira enquanto ele era vivo. Não havia como sentir-se solitária ao lado dele, ele compartilhava tudo: seus sonhos, suas preocupações, seus gostos e desgostos, suas ansiedades e expectativas. Era um homem de partilhar, de se inserir, de chamar para si a centralidade dos anseios e afetos daquela família. Não, ela não queria começar por aí! Não conseguia escolher a melhor parte desta fase para iniciar um texto.
Ela não tentara ainda dar outro contorno, fazer outro recorte temporal e começar sua narrativa pela noite em que ele se foi. À noite em que ela e o marido foram acordados por alguém, que da rua lhes gritava: “É aqui que mora a fulana? Ela precisa ir correndo para o hospital, pois o pai dela faleceu!” Mas como narrar a estupefaciência que tomara conta dos dois, antes que a dor, aquela gigantesca dor os dominasse? Que palavras utilizar para narrar aquele minuto em que o tempo parou e o mundo deixou de existir, porque ele se fora? Não, ela não conseguia começar por ali, as palavras lhe fugiam, como se elas também buscassem por ele.
Avaliou que talvez os dias felizes provocassem a abundância de palavras das quais ela necessitava, afinal, não poderia ser tão difícil assim falar sobre o próprio pai, a não ser que ela fosse muito mais incompetente do que se sentia. E ela puxou da memória muitos dias felizes, da infância, da adolescência e da vida adulta. Buscou palavras para descrever a sensação que sentira ao soletrar para ele as primeiras palavras da cartilha; depois, aos dez anos, o impacto positivo que teve na autoestima dela quando ele lhe pediu emprestado a sua História Sagrada, seu livro preferido e que ela ganhara do padre que coordenava as crianças da Cruzada, em Andirá. Também poderia falar da alegria que transbordou de seu coração quando ele foi à escola conversar com a diretora para informá-la que ninguém estava autorizado a obrigar qualquer de suas filhas a tomar o tal do leite da Aliança para o Progresso, do qual não gostavam. Ela não aguentava mais ser obrigada a ingerir aquele leite.
Mas de nada adiantou, não achou o melhor caminho e as palavras não chegaram, sua mente, lábios e mãos estavam selados para este tema. Não havia narrador em primeira pessoa, nem narrador onisciente ou onipresente que desse conta de reunir e utilizar as palavras necessárias para que ela pudesse construir uma homenagem a seu pai, seu querido pai! Ele que fora tão pleno de palavras talvez não conseguisse entender o que lhe ocorria! Quantas vezes ele se sentara na escadinha que levava da copa à cozinha da casa dela, conversando, relembrando histórias vividas, à espera de que ela lavasse a louça e lhe fizesse um café?
Talvez ela devesse consultar suas irmãs, pedir-lhes ajuda para organizarem, coletivamente, uma narrativa que cumprisse com o objetivo de traçar um retrato fiel daquele pai, tal qual ele fizera ao marcar a vida delas com os traços do seu caráter e personalidade. Mas, em verdade, ela não queria que fosse assim, era a filha mais velha, convivera mais tempo com ele, precisava ter ou adquirir a competência que lhe permitisse expressar numa narrativa a felicidade que era ser parte daquela família numerosa e barulhenta, coordenada, administrada e dirigida por aquela mãe e aquele pai tão especiais e singulares!
Será que se ela iniciasse contando que ele era um feminista convicto a narrativa funcionasse? Como narrar com eficiência as histórias que alicerçavam a compreensão dela de que ele não era, jamais fora, um conservador? Ele não possuía os traços e comportamentos de um patriarca dominador, modelo paterno ainda tão em voga na juventude dela. Talvez, e exatamente por ser pai de sete filhas, fosse um homem além do seu tempo. Isto era muito fácil de constatar na forma como ele tratava e conversava com suas “meninas” sobre o futuro. Desde muito cedo elas ouviam dele: “Tanto as mulheres quanto os homens precisam ter uma profissão que lhes dê a sobrevivência. Nenhuma mulher deve ser obrigada a se casar. Principalmente, nenhuma mulher deve se casar e resignar-se a ser sustentada por um homem. O casamento é apenas mais uma opção para homens e mulheres, mas não é uma obrigação para ninguém. Agora, o estudo sim, este é uma obrigação, principalmente para as mulheres, pois quem quer ter uma profissão que lhe permita sobreviver, com autonomia e dignidade, precisa estudar e se preparar pra isso. Não há nada errado nas mulheres que optam por serem donas de casa, mas esta deve ser também uma opção, não uma obrigação dada pela falta de opção”. Em nossa casa ninguém tinha dúvidas de que esta era a sua maior preocupação para com suas filhas. Mas, colocar apenas as palavras no papel para contar sobre a experiência de ter como pai um homem especialmente dotado para a tarefa de educar filhas e filhos, para ela, se tornara uma tarefa impossível. Um homem comum, simples, criado na roça e que estudara até o quarto ano primário, “um matuto”, como ele dizia de si mesmo, mas um grande pai. Um semeador de sonhos, um plantador de esperanças, um arquiteto de caminhos e realidades que ainda hoje atingem três gerações de sua família. Como falar sobre isto sem deixar tudo tão raso, insignificante, desprovido das verdadeiras emoções da realidade vivenciada?
Depois de três dias de inúteis tentativas, ela finalmente descobriu que talvez a onisciência e onipresença que compõem a essência dos verdadeiros pais, como fora seu pai e como era o pai dos filhos dela, que por admirá-lo muito lhe seguiu o exemplo, sejam impossíveis de se representar por palavras, pois são os seus comportamentos e ações no auxílio à construção da vida dos filhos, que falam por eles.

Dirce Bortotti Salvadori, escritora.

 

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