domingo , 19 agosto 2018
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SEXTA FEIRA, 20 HORAS

A primeira saiu esfuziante do salão de beleza. Resplandecia como uma capa de revista.

Os cabelos lisos e brilhantes, graças a uma chapinha bem feita, as mãos com unhas vermelhas combinando com as dos pés calçados em rasteirinha de pérolas.

Seu dia tinha sido calmo como sempre: acordou às nove, tomou seu iogurte com linhaça e foi malhar. Tudo muito saudável!

Depois de um banho e creme pelo corpo todo, retirou do freezer a comida congelada, tomou seu suco de uva, descansou, viu as notícias pela TV e foi ao shopping.

A segunda chegou em casa suando depois de um dia exaustivo de trabalho.

Saiu às seis e meia da manhã, pegou ônibus e chegou ao trabalho em tempo de passar o cartão. O telefone não deu descanso.
Às vezes, olhava para suas unhas mal feitas e pensava em se teria tempo para lixar e passar uma base.

O almoço no refeitório da empresa não estava nos bons dias e assim, voltou correndo para sua sala na recepção.

A tarde foi pior: muita gente inquieta, telefone tocando sem parar e seu rosto como uma máscara de alegria fingida desejando a todos “boas vindas”!
A terceira estava cansada de dar dó!

Já era final de tarde e aquela “coisinha linda”, codinome sua neta, não dera descanso!
Era suquinho, frutinha, papinha, aguinha e mais quantos inhas havia!

Tinha esquecido de como uma criança de quase um ano dava trabalho…

Quando pensou que ela dormia como um anjo, correu no chuveiro e de cócoras tentou lavar seus cabelos mas teve que sair com ele pingando condicionador porque seu bebê já estava de pé no berço reclamando companhia.
Mas era tão gratificante! Não cansava de olhar aquela criança tão perfeita e linda, filha da sua filha, que sorria feliz ao ouvir a música do cocoricó!

Terminou de trocar a fralda molhada e ouviu o barulho da chave na porta.

A mãe chegou!
A quarta voltou do motel com um sorriso nos lábios.

Estava feliz apesar de saber que aqueles encontros só podiam acontecer nas sextas feiras à tarde.

Ela se preparava desde cedo para isso.

Enquanto colocava roupa na máquina de lavar já passava o vestido de alcinhas para vestir e, no banho demorado, o ritual se completava: depilava pernas, axilas e virilha, lavava os cabelos, secava, esfregava cuidadosamente o óleo perfumado no corpo.

Depois de uma refeição ligeira seguia em seu carro ao local previamente combinado.
Fazia tempo que esses encontros aconteciam e ela, muitas vezes, gostaria de poder acabar com eles por saber que não tinham futuro algum.

Mas eram tão bons! Ela se sentia viva novamente! Não sabia como outras mulheres conseguiam ficar tanto tempo sozinhas, sem “um homem prá chamar de seu”.

O relógio marcava 20 horas e as quatro chegaram praticamente, juntas na frente do bar tão conhecido!
Eram amigas há tanto tempo!… Encontravam-se nos aniversários, casamento de filhos, batizado de netos, restaurantes, velórios… Assistiam a filmes e futebol juntas, choravam, riam e torciam…Aos domingos, juntavam suas panelas para um almoço recheado de conversas e confissões…Viajavam e, cada duas em apartamento de hotel, se juntavam para planejar o que fazer.
A porta se abriu e a música se fez ouvir.

Cabeças se voltaram para olhar e cada uma delas entrou triunfante, carregando sua história e expectativa.

A noite começava.

Tornaram-se iguais.

Era bom estar ali.

*Silvia Novaes Fernandes é escritora e poeta, formada em Letras, membro da AME de Campo Mourão e possui um blog:
www.prosapoemapastel.wordpress.com

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