Saudades do colo da vovó…

“Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.” A arte de ser avó de Rachel de Queiroz.


Demorei muito para ser avó. Talvez por ter tido as três filhas muito cedo, na inexperiência dos meus 22, 24 e 27 anos, longe do apoio das avós e dos parentes, num tempo de muito trabalho e correria que impedia a descontraída curtição de todos os bons momentos vividos.
E foram tantos, mas passaram tão rapidamente que parece que não foram suficientemente curtidos. Ficou uma imensa saudade, uma nostalgia daquele tempo quando os bracinhos de crianças se erguiam pedindo colo, seguravam nosso pescoço, quando a casa se enchia de alegria com o agito infantil, a mesa era farta de coisas “que a mãe fazia” no tempo em que podíamos comer de tudo sem medo dos quilinhos a mais na balança…
Os anos passaram, as meninas cresceram, passaram por todas as etapas da infância, adolescência, juventude, saíram de casa para estudar, vencer suas batalhas, seguir o seu caminho, construir sua vida. Ficou a interminável saudade de um tempo perdido sem ter sido devidamente curtido. Meu Deus, porque cresceram tão rapidamente! Sim, reconheço que pedi por isso muito em minhas orações… Restou rezar muito pedindo a bênção dos netos!!! E mais uma vez Deus nos atende e por sete vezes nos dá a dádiva deste presente maravilhoso que é receber “Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é “devolvido”.” Faço minhas as palavras da Rachel de Queiroz. Sim, ser AVÓ É UMA ARTE!
E agora fico a rezar por estes sete anjos, João Antonio, Isabel, Maria Luiza, Laura, Francisco, Ricardo e Julia, preocupada com o futuro deles, querendo ajudar no que posso, mesmo que a distância, curtindo cada fase desta infância tão rica de encantos, relembrando cada palavra, frase, sorriso, peraltice de cada um de nossos tesouros.
Não me incomoda envelhecer, mas a cada difícil separação, as dores no corpo avisam que os netos estão crescendo (depressa demais…) e que não temos mais a força da juventude para dar-lhes todo o colinho de avó que gostaríamos… Mas sentada é possível sim, cantar mais uma vez canções de ninar para os pequenos, deixando marcada a grandeza de nosso amor neste coraçãozinho amado, na esperança de que no futuro (quando não estivermos mais aqui…) eles lembrem com saudades da voz, do colo da vovó…
“Feche os olhos, ouça sua voz. Faça uma gravação imaginária. Guarde na sua melhor gaveta. Ouça de novo. Garanta que não esquece. Elas não duram para sempre. Mas a voz delas sim. A voz delas marca- e fica. Ouça enquanto pode e guarde naquela sua gaveta. Na melhor gaveta de todas, já que não podemos simplesmente atracá-las ao peito.” Se os netos acolherem o que pede Ruth Manus, a imortalidade será realidade!

Maria Joana Titton Calderari – graduada Letras UFPR, especialização Filosofia-FECILCAM e Ensino Religioso- ASSINTEC-PUC, membro da AML de Campo Mourão- majocalderari@yahoo.com.br

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