Pertences que não nos pertencem…

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Pertences que não nos pertencem…

  • Vicente Estanislau Ribeiro

Na vida da gente, desde pequeno até à idade adulta, sempre procuramos, na medida do possível, melhorar as nossas condições, quer pessoal quer profissionalmente.
É uma verdadeira e acirrada competição, já se iniciando no ato da reprodução, na concepção de um novo ser; e depois, literalmente, em sociedade, sendo na escola, na vida amorosa, no trabalho e no decorrer da vida.


E, cada vez mais, por exigência do mundo e do mercado globalizado em que vivemos, somos obrigados a acompanhar os seus movimentos e tendências.
Na escola se tenta alcançar o grau mais esperado da educação, o tão sonhado nível superior e, às vezes, não basta. É preciso uma especialização, um mestrado e até mesmo, um doutorado.
Paralelamente, há ainda, os cursos de aperfeiçoamento e aprendizagem para oxigenar os nossos conhecimentos, além das conhecidas palestras motivacionais.
Tudo para não ficarmos à margem da modernização, da revolução compulsória, imposta pela implacável necessidade, que nada mais é do que se atualizar, nesse mundo tipicamente atroz.
No trabalho, é outro embate, só se sobressai, e com justiça, aquele que tem um melhor estudo e capacitação ou quem, infelizmente, usa do tradicional, “corrimão da vida”, que nada mais é, o famoso “puxa-saco”.
Com isso, no decorrer de nossas vidas, as pessoas vão se enveredando e acumulando certificados, diplomas, congratulações, honrarias, troféus, medalhas, títulos e homenagens.
Não deixa de ser válido. Quem não gosta de ter um reconhecimento em vida, de ser lembrado, de ser valorizado, de ser homenageado por alguém ou por alguma instituição?
Às vezes, conforme o lugar em que chegamos, nos deparamos junto a parede, com muitos quadros dos objetos acima citados.
Com raríssimas exceções, no fundo, todos gostamos de elogios, é inerente ao ser humano, faz parte do processo.
Toda essa parafernália de coisas tem prazo de validade.
Como tudo tem nessa vida!
A começar pela nossa existência terrena.
Já presenciei, e não aconteceu uma só vez, quando alguém querido da nossa comunidade se vai, não é tão incomum assim, passados alguns meses, e nem é preciso tanto; eu mesmo, recebi em minhas mãos, objetos particulares como já citados (diplomas, fotos, troféus…) que foram jogados fora, inclusive em caçamba.
Alguém passou, viu e recolheu e, tratando-se de cidade pequena, acaba chegando até nós, por conta do que gostamos de fazer, quer escrevendo ou preservando coisas antigas, resgatando um pouco a memória da cidade e da sua gente.
Outros pertences são rasgados, queimados, destruídos e ninguém fica sabendo.
Por que isso acontece? Que fenômeno é esse?
Talvez seja a cultura de nosso povo, de não ter a peculiar tradição de resguardar a identidade e a memória.
Sem dúvida, os familiares seriam o alicerce e proteção disso tudo.
Porém, em se tratando de família, sobretudo nora, genro, sem falar nos próprios filhos que às vezes, são os primeiros a desprezar e desfazer das coisas pessoais que o “ente” querido guardou, conservou com tanta afeição ao longo da vida.
As buscas frenéticas são sempre os bens de valor, fora disso, nada tem importância ou muito significado.
As brigas familiares são quase certas. Não há acordo de jeito algum.
Se tiver patrimônio, aí a coisa piora, é disputa certeira, para saber quem leva ou fica com a melhor parte.
E, se não tiver bens, o sururu é o mesmo, é discussão por panela de pressão, máquina de costura, o tacho de cobre, a cristaleira, e assim vai…
Pois é, corremos tanto, atrás de tantas coisas e para quê?
Para chegar no final, a nossa vida ser transformada simplesmente em um pedaço de papel, chamado “Certidão de Óbito”.
Esse documento vai perambular nas mãos de muitas pessoas, mais por interesses outros do que por saudades.
Os nossos pertences pessoais que lutamos, primamos e acumulamos por tanto tempo, ficarão enjeitados e até terceirizados pelo caminho, por gente que, em vida, mal chegamos a conhecer.
Finalizando, como bem diz o artista plástico, Telomar Florêncio “Um dia seremos apenas um retrato na estante de alguém. Depois, nem isso”.

  • Vicentinho é Secretário de Planejamento do Município de Jacarezinho, PR.

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