terça-feira , 16 outubro 2018
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O PERIGO ALIMENTAR DAS VITAMINAS.

As regras alimentares da casa de meus pais tinham os seus princípios na mineirice de contornos judaicos da minha avó materna e na herança cultural dos italianos do meu lado paterno. Enquanto os italianos não se preocupavam muito com as misturas alimentares, para a avó materna não se podia misturar algumas frutas entre si e com o leite. Assim, mamão, banana, laranja, tangerina, abacaxi, manga e uva eram frutas que não podiam ser comidas antes do almoço devido ao leite bebido no café da manhã. Além disso, a ingestão de qualquer uma destas frutas eliminava a possibilidade de outra, pelo menos nas próximas duas ou três horas. Não se misturavam frutas e alguns tipos de carne, a avó não nos permitia fazê-lo e também não se misturava carnes e leite.


Estas eram as regras e ela as cumpria e cuidava pra que fizéssemos da mesma forma. Minha madrinha Amélia, que também fora madrinha de casamento de meus pais, era uma portuguesa muito querida e tanto minha mãe quanto minha avó gostavam muito dela e me levavam a visitá-la com frequência. Excelente cozinheira, sua mesa era sempre farta e ela gostava de nos mimar servindo as guloseimas de nossa preferência.
Numa das visitas que lhe fizemos, minha madrinha nos apresentou o liquidificador, objeto ainda desconhecido da maioria dos brasileiros e que só nos anos finais da década de 1950 chegara ao interior do país.
Minha avó olhou para aparelho com um ar de desconfiança e não escondeu seu desagrado quando minha madrinha picou um mamão, uma banana e um abacate e os colocou no tal aparelho, acrescentado a seguir o leite e o açúcar. A avó deixou bem claro pra minha madrinha que não gostava do que via quando ela me ofereceu um copo da tal “vitamina”.
– Credo em cruz, comadre. A menina não pode beber disso não! Isso é veneno! Onde já se viu! Não bastasse misturar estas frutas ainda colocou leite e açúcar? Isso pode matar a criança!
– Não, comadre, não é veneno não e fica muito gostoso. Meus filhos tomam todos os dias. Deixa a menina experimentar; tomar pelo menos um pouquinho pra acalmar as lombrigas. Coitadinha! Ela vai ficar com vontade.
Mas não teve conversa. Nada havia que convencesse a avó que eu poderia tomar aquilo sem correr risco de vida. Como eu olhasse pra vitamina com olhos gulosos ela se apressou finalizando a visita, e fomos para casa.
Minha madrinha não escondeu a desolação frente à teimosia da avó, mas como era uma pessoa paciente e educada, não quis contestá-la novamente e deu-se por vencida.
Durante todo o trajeto para casa, enquanto eu protestava por não ter provado a tal vitamina, a avó maldizia as coisas modernas e previu que elas ainda seriam responsáveis pelo fim do mundo.
Ao me entregar em casa, contou o acontecido a minha mãe e vaticinou que se passaria muito tempo até que ela voltasse à casa da minha madrinha comigo.
Anoitecia quando minha madrinha e meu padrinho chegaram a nossa casa com uma jarra de vitamina. Explicaram para meus pais do que se tratava e que resolveram levar a vitamina até nossa casa, temendo que eu ficasse doente de vontade de experimentá-la. Vencendo as relutâncias de minha mãe, adapta dos hábitos e costumes da avó, tomamos a tal da vitamina e combinamos de nada contar a avó para não magoar os seus sentimentos. Assim o fizemos.
Mas a avó, em certa medida, tinha razão, pois a partir desta data, sempre que eu tomava as tais vitaminas, acordava, na madrugada, sentada sobre o telhado de nossa casa, que, no entanto, se mantinha com portas e janelas bem fechadas. Nunca desvendamos qual era o sortilégio que me permitia sair de casa sem abrir portas e janelas e subir ao telhado sem qualquer escada nas proximidades. Esse se tornou um segredo em nossa casa e nem mesmo a avó soube dele.
Quase três décadas depois deste dia, enquanto eu fazia uma vitamina de mamão e abacate para a avó, na cozinha de minha casa – e no liquidificador que meus padrinhos me trouxeram como presente de casamento – recordei-lhe esta história, omitindo, no entanto, meus passeios noturnos sobre o telhado. Juntas rimos a não poder mais.

*Dirce Bortotti Salvadori, escritora

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