domingo , 19 agosto 2018
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O desconforto platônico

Comumente ouve-se: – tudo o que se escreveu depois de Platão (427-347 a C.) são meras notas de rodapé. Exageros à parte, cada vez que voltamos os olhos ao autor pagão surpreendemo-nos com a atualidade de suas reflexões. Elas nos estimulam, mesmo não sendo exímios conhecedores de filosofia, antes apenas curiosos sobre as formas de pensar, de explicar o mundo e, quiçá, a nós mesmos.
Segundo François Chatelet, “de todos os pensadores, ele (Platão) foi certamente o que teve a maior, a mais profunda, a mais durável influência. (…) seu texto permanece como um modelo e, ao mesmo tempo, uma solicitação a se fazer outro tanto e a se ir além…”
Dentre tantos assombramentos oferecidos pelo filósofo, chama a atenção o conceito de imitação, de mimese, explicada por ele no Livro X de “A República”, texto escrito em forma de diálogo entre Sócrates e Glauco.


Nesse volume, o filósofo discorre sobre o que é a verdade; as diferenças entre a aparência e a essência das coisas e as consequências do raciocínio errado dos governantes na formação da cidade. Ao escrever essa obra, Platão encontrava-se num estado de alma de desapontamento frente aos acontecimentos políticos na Grécia – a derrota de Atenas, a condenação e a morte de Sócrates, entre outros. Nesse contexto, o autor questiona sobre como deve ser a formação intelectual dos governantes e, ainda, a partir de que método se aprende a Verdade.
Platão apresenta o seu método de apropriação da verdade em três etapas. Usa como exemplo, o marceneiro que faz uma cama e o pintor que desenha e pinta o móvel e também a ideia que origina o móvel fabricado. Segue explicando que o móvel construído pelo marceneiro não se constitui numa criação dele e sim, uma cópia; por sua vez, o pintor faz uma cópia da cópia do móvel feito pelo marceneiro. Dessa forma, tem-se três espécies de camas:
– a primeira – a ideia original – criada pela divindade, sendo esta a única verdadeiramente real;
– a feita pelo marceneiro que fabrica uma cama particular, a partir da cópia da ideia original;
– a cama desenhada e pintada pelo pintor – o imitador daquilo que o artífice fez, ou seja, a cópia da cópia. Tem-se assim, o conceito de mimese defendido por Platão, conceito que descamba na crítica aos artistas, aos poetas, por serem imitadores daquilo que já foi uma imitação, produzindo cópias de cópias, filtradas pelos sentidos. As obras construídas pelos artistas, segundo Platão, são simulacros, arremedos da realidade, cópias falsas.
Para esse pensador, a verdade é suprassensível, ou seja, não está nos sentidos humanos – usados para fazer coisas. Sequer está na imagem pintada pelo pintor ou nas palavras do poeta. Vem da essência e é única, de impossível reprodução. A essência tem vida própria e é a origem das coisas, da poesia e da imagem do pintor.
Defende Platão: os sentidos e a razão não conduzem à verdade, mas à imitações feitas pelos artistas e poetas. A crítica platônica acrescenta que os trabalhos dos poetas, como Homero por exemplo, não construíram obras sólidas por não corresponderem à essência das coisas. Os artistas e poetas não criariam imagens verdadeiras, apenas reproduzem imagens falsas, sem sequer saber como fabricar as coisas reproduzidas ou a utilidade delas.
Por conseguinte, pelo bem da cidade, a formação dos administradores não poderia ficar a cargo de artistas e sim dos filósofos – os únicos a quem foi dado conhecer a essência das coisa através do desenvolvimento da reflexão – do pensar sobre o pré existente no mundo das ideias. Os pensadores seriam os únicos a alcançar a essência das coisas e não a cópia da cópia; e, a essência em suma, seria o bom e o justo para a construção de uma cidade também justa. Assim se configura o desconforto platônico sobre a questão da mimese: para o bem da cidade Platão recomenda o banimento da poesia e da arte.

Nelci Veiga Mello
Mestre em Linguística Aplicada.
Academia Municipal de Letras de Campo Mourão; membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni e do Centro de Letras do Paraná

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