terça-feira , 17 julho 2018
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MEU GRITO PELAS CRIANÇAS

*Cida Freitas

beauty girl cry

Não há nada mais puro, mais lindo nesse mundo que o sorriso inocente de uma criança. Para mim, passarinhos e crianças são sinônimos pela leveza, fragilidade, beleza e até pela algazarra quando estão em “bando”.ão há nada mais puro, mais lindo nesse mundo que o sorriso inocente de uma criança. Para mim, passarinhos e crianças são sinônimos pela leveza, fragilidade, beleza e até pela algazarra quando estão em “bando”.Ao escrever este texto, sentia vontade de chorar pelas crianças desaparecidas, violentadas, mortas. Ainda sob o impacto da criança sequestrada e morta em Umuarama, meu coração dói, meus pensamentos sugerem coisas que não quero escrever aqui.Estamos descobrindo agora como age a justiça brasileira. Estamos percebendo quem são as pessoas que elaboram as leis no Brasil e como são tratados os crimes.  Descobrimos, há pouco, para quem são os “direitos humanos”. Para mim, monstros não pertencem à categoria humana.Toda vez que ocorre uma tragédia com criança, voltam em mim lembranças de tantos outros casos. Isso me tira o sono, a paz de espírito.Como educadora, atendi, certa vez, uma menina de onze anos, aparência de oito. Não se interessava pelas aulas, não cumpria tarefas, reprovara várias vezes, desaparecia de vez em quando…. Ao falar comigo, não me encarava. Cabecinha baixa, olhar sem brilho. Tudo o que eu dizia parecia não fazer sentido para ela, era como se vivêssemos em mundos diferentes. Sentei-me a seu lado e tentei abraçá-la. Ela não se mexeu perdida, distante. Chamei sua responsável. Era criada pela avó materna. A avó, muito reticente, mal respondia minhas perguntas. Eu ficava cada vez mais preocupada, não saberia ajudar a criança se não conseguisse compreender sua história. Depois de muito tentar a avó me disse: Ela é assim porque é abusada pelo avô. Quase caí da cadeira. Pelo avô? Mas não é seu marido?- Sim! E a senhora continua com ele, não o denuncia… deixa a criança nessa vida? – Ela me respondeu como se aquilo fosse muito normal: ‘É, minha fia, se eu mandá ele embora, quem vai tratá de nóis?Depois de conversar muito com aquela senhora, depois de tentar convencê-la do absurdo que estava permitindo, eu a dispensei e chamei novamente a criança. Agora eu já não sabia se a pegava no colo, se chorava, se gritava com ela a dor de ser assim tão estupidamente usada pelas pessoas que deveriam cuidar dela.Fiquei um tempo sentada a seu lado sem dizer nada. Depois eu lhe falei: Tem alguma coisa que você gostaria de me contar sobre sua vida? – Ela olhou meio de esgueio para mim e resmungou alguma coisa que não entendi. Então eu expliquei que eu só queria ajudar, que nossa conversa seria só nossa, um segredo nosso. Então ela me falou aquilo que eu não queria ouvir: Desde seus sete anos ela era abusada pelo avô e pelo vizinho, amigo do avô.Eu quis morrer. Nos minutos que se seguiram, mil pensamentos me assaltaram. Imagens de crianças conhecidas desfilaram em minha mente. Pensei naquelas que desapareceram, como o caso do menino de Curitiba, que nunca mais apareceu.
Pensei no caso da criança morta em cerimônia diabólica em Guaratuba… pensei em meus filhos, sobrinhos afilhados, netos…. Por um segundo, pensei até em me tornar uma assassina.Mas eu precisava me controlar para conversar com aquele anjo ferido. Eu não sabia o que dizer, mas tinha que dizer algo que lhe desse esperança. Eu a abracei e lhe prometi que iria defendê-la daquilo tudo.Já era tarde. Fui conversar com uma pessoa que trabalhava há mais tempo que eu naquela unidade. Ela, vendo meu desespero, disse: “Você vai ter que se acostumar. Isso é comum aqui”.Como me acostumar? Pelo amor de Deus! Ninguém iria mudar essa terrível realidade? Conseguiam dormir sabendo do que crianças eram molestadas na própria casa? Que hipocrisia é essa?Fui para casa arrasada. A noite foi uma eternidade e eu acordada a remoer pensamentos e a pensar possíveis soluções. Senti alívio quando amanheceu. Minha primeira tarefa: Ministério Público.  Fiz um “auê”.
Por sorte fui atendida por uma senhora que já havia sido professora. Falávamos a mesma linguagem. Ela me contou coisas de se arrepiar. Chorei muito. Estabelecemos uma parceria e alguns projetos iniciaram ali, naquele momento.  Cursos, palestras acompanhamento familiar pelo Conselho Tutelar e Ministério Público. Eu queria fazer mais, mas precisei voltar às minhas raízes. Plantei a semente da indignação, mexi em um vespeiro, gritei meu desespero, acordei alguns que cochilavam… Issami Tiba me ajudou na tarefa, através de seus livros e pessoalmente. Minha gratidão eterna a ele.Quantas crianças ainda passam por essa barbaridade? Quantas são arrancadas de sua inocência sem ter a quem recorrer arrastando consigo, vida inteira, os traumas dessa monstruosidade?E nós, reles brasileiros sem posição, ficamos a assistir às notícias de mais um caso, escrevendo nossa indignação no facebook, mas acomodados em nossa apatia?A história irá contar sobre uma geração que se deixou roubar pelos seus governantes e continuou apática como se assistisse a uma novela sem fim. Uma geração que viu suas crianças serem dizimadas pelo mal caratismo de pseudos loucos e não se rebelaram.Muitos dirão que esses monstros são pessoas doentes, que precisam de ajuda. Às favas! Se são doentes mentais que sejam trancafiados em hospícios! Se são bandidos que estejam presos em cadeias! – Nossas leis são muito leves, dirão alguns. Então, agora nós sabemos porque as leis são leves e, partindo dessa compreensão, nós, enquanto sociedade, precisamos definir que leis queremos e “usar” os legisladores apenas para “formalizarem” as leis. Não quero compactuar com os apáticos! Quero conclamar as pessoas de bem, as igrejas, as ONGs sérias, a sociedade organizada, para iniciarmos um movimento nacional em prol dos inocentes, em prol de nossos anjos que têm o direito de ser criança, de viver sua inocência, de brincar, estudar, de se desenvolver a partir do amor, do carinho, da ternura de seus pais, familiares e professores. É inadmissível nosso silêncio! É inadmissível que aqui pertinho de nós saibamos de caso, como eu sei, de uma jovem que vive desesperadamente com síndrome do pânico por ter passado por uma dessas experiências malditas. Vamos nos calar? Vamos ficar assim como se nada disso nos atingisse? Ou vamos levantar a voz como pai, mãe, avós, educadores, como cidadãos?Vamos lá, meios de comunicação de massa?! Vamos lá Secretarias do Bem-Estar social?! Vamos lá Instituições religiosas?! Vamos lá escolas?! Vamos lá ONGs sérias? Vamos?Coloquem-se no lugar dos pais que tiveram seus filhos subtraídos para nunca mais saber do paradeiro deles, se morreram, se foram usados em rituais, se foram para outros países, se serviram de doadores de órgãos… Sintam em si o desespero daqueles que enterram seus pequeninos sabendo que foram torturados, violentados de todas as formas. Pensem nos horrores vividos por esses inocentes! Pense que poderia ser seu filho, seu neto… E então, vai ficar indiferente? Pelo amor de Deus!!!
Cida Freitas, professora, empresária e escritora

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