quarta-feira , 17 outubro 2018
Últimas

Jardim

I
Plantei uma roseira no meu jardim.
Carinho e desvelo foram minhas mãos.
A retribuição foi o desabrochar de uma flor
Mais pesada que seu finíssimo caule
Pôde suportar.
Vergada sobre o próprio peso,
Olhava para o chão, mas não para mim.
Em pânico,
Finquei estacas.
Amarrei-a com laço vermelho.
Escorei-a.
Nada. Continuava voltada para o chão.
Assim passou dias de sol e de chuva.
Assim passei meus dias,
Sufocada pelo peso daquilo que não se suporta.
Até que o sol, a chuva, o vento, o sereno
Desbotassem
Ressecassem,
Desfolhassem e
Destruíssem as rosas do meu jardim.
II
A beleza e a tristeza andam de mãos dadas.
Aparecem assim, de repente.
Insinuantes sombras.
Como um arrepio se mostram
Em cores, muitas cores.
Olho minhas flores.
E olho com mais cuidado.
Vejo primaveras púrpuras
O azul das hortências
O cor-de-rosa dos antúrios.
Todas machucadas
E me contam que a beleza não as protegeu,
Nem lhes deu vida longa.
Só fragilidades e dores.
Ah! E tem uma branquinha.
Não sei seu nome,
Mas quando se desprega do caule
Cai inteira.
Um verdadeiro suicídio.

Nelci Veiga Mello – Academia Municipal de Letras de Campo Mourão

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*