terça-feira , 17 julho 2018
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Histórias de Gasparzinho

Papai se chamava Gaspar. Para a família era Gasparzinho e gostava de contar histórias. De todo tipo. Engraçadas ou assustadoras. Tinha aquela dos dois parentes que saíram a cavalo, campeando novilha desgarrada e a noite baixou na volta pra casa. Mata fechada, milhares de pios e um luar espelhado malemal penetrando a muralha das folhas prateadas. Os ressabiados ouviram um amassar de folhas, muito, mas muito de leve, parelho à trilha. Os dois, até aquela hora com as rosetas das esporas adormecidas, os cavalos passo a passo, à rédea solta, E aperceberam o cheiro do bicho – e era grande – os cabelos e todos os pelos do corpo virarem espinho de ouriço. Certeza, certeza absoluta – era a tal da onça pintada. Bicho cruel, conhecido do povo das redondezas e de bucho vazio, à caça, acoitando, pronta para o bote, como fazia toda noite.


– Compadre do céu, viramos ceva do bicho!
Cavaleiro e cavalo um só corpo, uma só corrente de energia, empinaram com as crinas arrepiadas e se perderam numa corrida de vida ou morte. E o tropel foi longe em galope fechado até um descampado. Os animais esbaforidos, molhados, com pisaduras dos arreios e babando já sem forças. “Isso durou horas e horas”! Alongava papai, naquela sua voz de contador de prosas. Contava lentamente, enfeitando, explorando e valorizando ao máximo a cadência da frase, as entonações mais fortes, mais fracas, a gesticulação apropriada para cada percurso narrativo.
– Daí, depois da corrida destrambelhada. Os cavalos sem forças pra continuar, porque os bichos é que mais sentiram o perigo, veja – as esporas nem riscaram a barriga deles! dispararam era de medo mesmo!, aí pararam naquele descampado enluarado, claro que nem um dia. Um dos homens perguntou:
– Tá inteiro, compadre?
– Até que não sei, compadre, mas se sangue fede, eu tô todo arranhado…
A cada contação da mesma história, papai mudava um pequeno detalhe aqui e ali, criava suspense, ajeitava uma palavra nova. Assim, a atualizava todas as noites e nós nos divertíamos sempre. Era uma gargalhada só, cobrindo as nossas noitadas ao redor do fogão de lenha, se era inverno, comíamos milho verde assado, pinhão na chapa e um café com leite inesquecível.
O tipo de causo que papai mais gostava, que fazia seus olhos brilharem (e só ele ria), era os causos de assombração. Nesses então ele se esmerava. Mestre que era na mentira, no ilusionismo. Não lhe faltavam engenho e arte. As histórias eram sempre as mesmas: a do fantasma do padre que guardava um tesouro, bem ali, no alto do pasto, no pé de um dos três pés de coquinho que formavam um triângulo. No ano de 1999, o fantasma ia revelar o segredo. E nós ficávamos na expectativa do tempo chegar. Mal sabíamos que esse tempo não nos traria tesouro algum. Que nosso tesouro era aquele: as labaredas do fogão, aquecendo na frente, atrás os costados gelados e as nossas sombras projetadas na parede – fantasmagorias. Quando o causo terminava, nos movíamos apenas em bando, ninguém saia dali sozinho. A parca chama do lampião de querosene, iluminando o assustador caminho da cozinha para os quartos. Eu não fazia o trajeto sozinha nem amarrada, ia me enroscando nas pernas de alguém tal era a paúra, o medo. Ainda mais pelo que me esperava no quarto, pavor insuportável: uma revista Cruzeiro, aberta na página onde havia uma foto de uma freira sem rosto atrás das grades de uma cela. Dizia a reportagem que era a foto de um fantasma. Eu não tinha coragem nem de fechar aquela página. A revista me arrepiava e o peito se torcia de puro horror. Foram meses para que uma mão piedosa fechasse a maldita página.
No verão era pior, papai contava as histórias deitado na rede da varanda. Ouvíamos sentados no banco de madeira sem espaldar, atrás da longa mesa de refeições. Não víamos seu rosto, apenas a brasa do palheiro alumiando a noite dos grilos e sapos em sinfonia. A escuridão imperava e a batuta de sua voz regia nossos sustos. O ar nos trazia o cheiro das vacas ao redor da casa. Ouviam-se os rumores da noite, fazendo fundo à voz de papai: a saparia do banhado, gritando foi boi, não foi, foi boi não foi… o piado das corujas, os grilos alucinados e o gado remoendo o pasto. Para nossos ouvidos aguçadíssimos, o menor graveto pisado soava como uma bomba, ouvidos abertos como a goela da cobra da história de papai. Quanto mais medo, mais fascínio. Não perdíamos uma sílaba e, às vezes, implorávamos pela repetição de uma passagem aqui e ali, ainda mais se a história do dia fosse de cobra. Com esse bicho peçonhento, vira e mexe eu tropeçava. Me arrebatava o causo da mulher que dava de mamar para a cobra. Cruz credo!
E papai emendava assim:
– E tem aquela da mulher de dieta que dava de mamar para a cobra. A bichona saía da fresta do paiol e aí vinha bem de mansinho mansinho, escorregando, se enroscando, deslizando, desviando assim e subia na cama de noitão e o nenenzinho magrinho magrinho o pai não entendia porque a criança estava tão mirradinha e os peitões da mulher vazando de tanto leite e a criança chorava e ele dizia que não podia ser de fome.
Um dia, o homem decidiu fazer uma tocaia e ver o que é que estava acontecendo. Lá pelas tantas, altas horas da noite, depois da meia noite, ele viu a bichona botar a fuça na fresta e deslizar vindo assim ondulando pro lado da cama enroscando no pé da cama e veio e veio para o seio da mulher adormecida. O bicho tava bem acostumado e pro bebê não chorar, punha a ponta do rabo na boquinha da criança e grudava no seio da mulher. Mamava até esgotar todo o leite. Aí o homem viu porque a criança tava definhando, definhando, magrinha magrinha… Minha Nossa Senhora da Aparecida! meu filho vai morrer! Daí ele pensou e pensou como ia matar a maldita e salvar a família daquele encanto dos diabos.
Não dormiu mais só pensando pensado. Daí ele resolveu ficar de vigia, de novo, escondido em cima do guarda-roupa. E a bicha saiu da fresta depois da meia noite e veio brilhosa, rastejante, fria e silenciosa. Ondulou entre o lençol, pôs o rabo na boca do nenê e a boca no seio da mulher e o homem cevando na tocaia com a pontaria pronta. Esperou a bicha inchar de leite e ele olhando… Quando ela escorregou da cama roliça, cheinha de leite ele atirou bem na cabeça e foi leite espirrado pra tudo quanto era lado. Na mesma hora, uma bola de fogo se formou no ar e desapareceu, cobra, leite, tudo… e o homem ficou ali paralisado até passar o susto.
Pois é, foi assim. Isso aconteceu porque a cobra só vinha quando ela tava dormindo. É um bicho cheio de tretas. Agora, se ela viesse de dia, com o sol alumiando tudo, era só dar um nó na barra da saia da mãe e a bichona ficava ali, durinha, paralisada. Daí você volta e dá um tiro nela. Mata. Bicho peçonhento! Ladino, tem de esmagar a cabeça. E tem mais, se você não vê a cobra mas desconfia, põe um fio de cabelo num copo d’água. Depois de alguns dias ela sai da goela da fresta e vai voando pra outro lugar.
Foram nossos tempos encantados, de sonhos e esperanças.

Nelci Veiga Mello,
Centro de Letras do Paraná
Membro correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni
Academia de Letras de Campo Mourão

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