Esses Humanos Carentes

Desde criança, ao ver pessoas muito cheias de si e outras muito humildes, eu pensava que houvesse “castas” e que isso fosse o normal da vida. Eu pertencia ao grupo dos humildes pelas condições de minha família. Assim, eu pensava que as cheias de si pelo cargo que ocupavam, pelo sobrenome, pela riqueza, fossem pessoas superiores em todos os aspectos, isto é, que fossem educadas, sábias, honestas, resolvidas, felizes.

Conforme fui crescendo e conhecendo a realidade, pude perceber que mesmo aqueles que ostentavam poder e dinheiro, eram pessoas carentes. Carentes de afeto, de amor, de humildade, de senso crítico.
Eram pessoas, às vezes, mais carentes que as de nossa “casta”.
Tantas são as carências!…
Cresci. O tempo foi passando e eu sempre observando a vida para compreender o ser humano. Percebi que as autoridades a quem eu devotava o maior respeito nem sempre se davam ao respeito. Percebi que casais que desfilavam felizes (de mãos dadas) pelas ruas, nem sempre se entendiam em casa, ao contrário, viviam um faz de contas e dando mau exemplo aos filhos. Percebi que muitos que desfilavam seus carros último tipo e se apresentavam sempre muito bem vestidos, nem sempre eram pessoas honestas, bons pagadores, pessoas éticas.
Mas o que mais me surpreendeu foi descobrir que as carências infantis podem acompanhar os adultos vida afora, que uma criança mal amada terá dificuldade para se relacionar; que os problemas dos adultos quase sempre estão atrelados a algo mal resolvido na infância/adolescência.
Ao perceber as carências humanas comecei a entender melhor as pessoas e a mim mesma. Não há quem seja totalmente resolvido, não há ninguém totalmente feliz. A própria miséria do mundo já rouba a paz das pessoas. Não é possível ser feliz sabendo que há tanta injustiça, tanta exploração, tanta mentira, tanto desamor.
O ser humano precisa ser amado, respeitado em suas necessidades e cada um de nós precisa aprender a empatia. Ao conhecer o outro, aprendemos mais de nós. Ao conhecer o outro, despertamos em nós a capacidade de compreender as diferenças, de conviver com as diferenças.
Enfim, somos humanos, portanto imperfeitos, incompletos e por isso, carentes.

*Cida Freitas é professora empresária no ramo da Educação e escritora.

Check Also

Espelho espelho meu…

Acredito que você já tenha ouvido essa frase “espelho espelho meu, existe alguém mais bela …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *