DO DIA EM QUE O FIM DO MUNDO FOI ANUNCIADO.

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DO DIA EM QUE O FIM DO MUNDO FOI ANUNCIADO.

Dirce Bartotti Salvadori

Aos seis anos, minha prima e eu éramos as companhias da avó pra todas as suas aventuras: visitar uma comadre ou uma amiga num sítio ou chácara “próximo” da cidade, o que significava de quatro e cinco quilômetros de caminhada; levar uma criança pra benzer; buscar alguma planta do campo pra fazer um chá; buscar frutas para as compotas; buscar milho pro curau e a pamonha… A avó sempre tinha um motivo pra passear, principalmente no campo.
Andar pelos pastos, nos campos, era uma delícia. Um pouco caminhávamos, outro tanto corríamos, nos adiantando à avó, pra deitar na relva e descansar enquanto ela não nos alcançava. Depois rolávamos nas muitas encostas ou breves descidas nos recortes da serra onde a grama viçava. Os passeios no campo eram os nossos preferidos. Mas havia outros!
Certo dia, acordei às sete horas da manhã, com as vozes agitadas da avó e da minha mãe, que conversavam, na porta da cozinha de nossa casa. Quando apareci, a avó perguntou se eu queria ir no cemitério com ela logo depois do almoço. A prima que estava com a avó, foi logo contando que era pra ver uma criança de duas cabeças que estava exposta, com sua mãe morta, no necrotério do cemitério local. O bichinho da curiosidade imediatamente me mordeu e eu não conseguia falar em mais nada. E as perguntas vieram em borbotões, mas um “cala a boca, menina” me pôs de sobreaviso, pois a mãe, que sempre aprovava nossos passeios com a avó, desta vez reagiu indignada, explicando que ver algo assim iria impressionar a mim e a minha prima. A avó fez de conta que não escutara o que a mãe dizia e explicou que levaria a mim e a minha prima com ela na visita que faria, à tarde, ao cemitério.
Eu só repetia: – deixa eu ir mãe, deixa eu ir. A contragosto a mãe acabou cedendo.
Depois do almoço, num lindo dia de sol, com céu azul e brisa fresca, característica dos dias de primavera no vale, a avó, Mazé e eu nos colocamos a caminho do cemitério, com a curiosidade aguçada pelo fenômeno novo e desconhecido. Queríamos saber da avó os detalhes todos deste acontecimento e embora ela também não os conhecesse, conjecturava que certamente era um dos anúncios do fim do mundo.
O cemitério era longe e repentinamente, enquanto caminhávamos, o clima se modificou. O céu azul se tornou nublado e escuro, nuvens cinzentas e pesadas se constituíam sobre nossas cabeças. O vento levantava a areia da rua que nos fustigava os olhos. O dia se tornou escuro e o ar pesado e frio. Caminhamos as duas últimas quadras até o cemitério usando as mãos pra proteger os olhos e as saias do vento e da areia.
Mas a avó não quis retornar. Chegamos ao cemitério e havia uma longa fila de homens, mulheres e crianças que se apresentaram para ver o fenômeno e nem a mudança repentina no clima os demovia, embora colocasse no olhar de todos as marcas do medo.
As mulheres conversavam em voz baixa e já chegara ao ouvido delas que uma das cabeças da criança era loira e a outra morena e que a face de ambas tinha arranhões, o que inundou a cabeça de todas de criativas hipóteses: – a mulher traíra o marido, que era moreno, com um homem loiro e Deus a castigara revelando assim o seu pecado; a mulher desejara ter um filho loiro, mas o marido era moreno e por isso Deus também a castigara; as crianças brigaram entre si pelo direito de uma cabeça sair primeiro que a outra; aquilo que acontecera era um sinal de Deus do final dos tempos e aquela brusca mudança climática era uma amostra do Seu desagrado; talvez aquele acontecimento fosse um sinal do anticristo.
Curiosas, boquiabertas, mas também assustadas, minha prima e eu vimos chegar a nossa vez de contemplar os motivos de tanta conversa. Jamais me esqueci daquelas imagens: uma mulher jovem, talvez menos de trinta anos, jazia, com semblante sofrido, ao lado de uma criança, embrulhada em mantas, com as duas cabeças expostas, ambas as cabeças traziam a face marcada por arranhões. Uma das cabeças portava um cabelo escuro e encaracolado e a outra, cabelos loiros, também encaracolados. Todos que passavam ao lado do caixão se persignavam com os olhos esbugalhados frente ao assustador fenômeno. Ao lado do caixão, um homem jovem, muito triste e abatido, observava o desfile de visitantes e com um gesto de cabeça agradecia aos que lhe dirigiam a palavra, esquecido da criança triste que se mantinha ao seu lado. Eu soube depois que só eu vira esta criança ao lado do homem.
Cumprida a missão que a avó se propusera, corremos para casa, amedrontadas tanto com o prenúncio de um definitivo cataclismo, predito e reconhecido pelas pessoas que presenciaram o fenômeno da criança de duas cabeças, quanto pelas possibilidades da chegada do anticristo, ali ventilada, como punição pelos pecados humanos.

Dirce Bartotti Salvadori

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