quinta-feira , 19 julho 2018
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Cuba, 25 anos depois…

Estive em Cuba em março de 1993 em uma missão de solidariedade promovida pelo CILA-Comitê para integração Latino-Americana do Paraná. Em nossa bagagem levamos muitos sabonetes, pasta dental, material escolar, muitos chicletes, balas para as crianças e uma esperança de conhecer um país socialista que resistia e recusava de voltar ao capitalismo anterior à revolução de Fidel, Che.


Além das visitas oficiais à Secretaria de Educação, Cultura, escolas, universidades, hospitais, tivemos oportunidade de andar nas ruas, entrar nas casas dos cubanos partilhadas nos prédios deteriorados, sem conservação, conhecer a vida real que muito nos chocou. Viviam em um tempo “especial” com o fim da ajuda na União Soviética, sem comida, sem energia, época de escuridão, ”apagão”. A culpa toda era colocada no “embargo” dos EUA. Não havia lojas, supermercados e nas bodegas do governo as prateleiras estavam vazias, não tinham acesso nem ao básico liberado em suas carteirinhas. Havia filas enormes para receber uma massa açucarada e chá para saciar a fome. (“Quando hai ambre…” respondeu uma cubana quando perguntei se era bom.)A terra que antes produzia muita cana de açúcar estava abandonada, não havia adubo, sementes , nem vontade de trabalhar num sistema onde não havia incentivo a produção e comercialização.
O país havia aberto as portas ao turismo como forma de sobrevivência, para que os dólares do turismo financiassem a educação, saúde. Mas isso abriu as portas para um mundo paralelo.
Nos hotéis havia comida, lojas pagas em dólares criando uma divisão social entre os que tinham acesso ao dólar recebido de propinas dos turistas ou dos parentes no exterior (os chamados “gusanos”, traidores) e os cubanos “fidelistas”. O sonho de consumo capitalista, a necessidade de sobrevivência enchia as ruas de vendedores de produtos roubados ou comprados em peso e revendidos em dólares aos turistas: rum, cigarro, PPG (o que aconteceu com esse remédio dito milagroso?), mulheres, travestis…
Retorno agora a Cuba, 25 anos depois, sem Fidel e não encontro mais as ruas cheias de cubanos buscando dólares de forma ilícita, mas pessoas trabalhando de todas as formas possíveis para sobreviver com os CUC, moeda turística com valor muito superior ao peso. Desde todas as formas de taxi (oficiais, não oficiais, carros antigos, motos (coco – taxi), bic-taxi), restaurantes “paladares”, hotéis familiares, bares vendendo muitos mojitos e daiquiris aos turistas, lojas de artesanato com muitas imagens do Che, vendas de artigos produzidos por agricultores até lojas de produtos trazidos do exterior, legal ou ilegalmente como nos nossos camelódromos. A prostituição já não é tão ostensiva, nem encontramos crianças nas ruas com a mãozinha estendida: ”Hay chicles?”. Elas estão mais saudáveis, alegres e brincam tranquilas nas ruas com brinquedos vindos da China, outro país de governo socialista que está dominando o mundo com seu capitalismo econômico…
Não tive oportunidade de ver o porto de Mariel, construído com nosso suado dinheiro, mas soube pelo taxista (veterinário que ganha mais como motorista como tantos outros) nos informou que é a única porta de entrada para todo comércio do país. Será mais dívida impagável feita com o dinheiro de banco brasileiro (ainda não abriram as contas secretas do BNDES e outros bancos) financiando empreiteiras e partidos corruptos brasileiros para “ajudar” ditadores de Cuba, Venezuela, África… Até onde vai a ideologia insana de governantes que se unem para manter o seu projeto de poder mesmo à custa da fome de seu povo?
O exemplo mais real vem agora da nossa vizinha Venezuela, vivendo uma situação pior da de Cuba que eu vi há 25 anos, com os venezuelanos fugindo a pé para o Brasil (em Cuba fugiam de balsas para os EUA) e o governo de Maduro comprando US$ 440 milhões de petróleo para enviá-lo subsidiado a Cuba.
Se há 25 anos a ida a Cuba foi a experiência do desencanto do socialismo, agora foi a confirmação. Uma viagem ao mundo real socialista de Cuba, ou da Venezuela faria muito bem a certos políticos brasileiros. O mundo ainda precisa encontrar o caminho do equilíbrio entre os extremos de um socialismo opressor e um capitalismo selvagem. O embate entre o ditador da Coréia do Norte e os EUA é o exemplo desta realidade!

Maria Joana Titton Calderari – membro da Academia Mourãoense de Letras, graduada Letras UFPR, especialização Filosofia-FECILCAM e Ensino Religioso-PUC- majocalderari@yahoo.com.br

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