Aprender Sempre

Os roteiros de viagens turísticas, como o próprio nome diz, primam por obras primas – museus, catedrais, histórias contadas a partir dessas mesmas obras para que as gerações do presente e do futuro não repitam os erros do passado – não só, mas principalmente.


Estivemos, Janaína, minha filha, e eu, na Grécia, durante aqueles dias de grande agitação popular, quando o povo saiu às ruas, reivindicando seus direitos. Uma surpresa diferente em meio às suas famosas ruínas. Presenciamos passeatas em Creta e em Atenas. Na última, houve quebradeira geral. A manifestação começava com o povo em passeata até a Praça Sintagma, onde se localiza o Parlamento. Ali o pau quebrava feio. Vitrines estouradas, machucados policiais e manifestantes, menos o mascote da passeata: um cachorro enorme. Na Grécia cachorros e gatos vivem livremente e todos cuidam deles, sem laços nem fitas. No bairro da Placa, há nas portas pratos de ração e água. Os bichinhos são responsabilidades de todos os cidadãos. Aquele cachorro enorme, cada vez que a passeata, anunciada em cartazes feitos à mão e pregados nos postes, se organizava, ele ia na frente puxando o povo. E na hora da briga era o único a não apanhar.
Em Budapeste – Hungria, novamente presenciamos algo inesperado para nós: a ferida não cicatrizada pelo passar do tempo. Ingenuidade. Passeávamos esquecidas dos ensinamentos de Foucault: as formações discursivas não desaparecem. Elas coexistem e uma se sobrepõe à outra, dependendo do tempo e das forças atuantes em determinada sociedade, ou seja, trata-se de uma questão de hegemonia. Mas voltando ao ponto: perto de nosso hotel, havia uma praça com uma fonte, com vários jatos de água brotando do chão e, ao fundo uma escultura. Trata-se de um monumento às vítimas da ocupação alemã. E aí começa a discórdia.
A escultura tem como a figura central o Arcanjo Gabriel, representando a Hungria, segurando a esfera do país, enquanto uma águia, acima, se prepara para atacar. A águia simboliza a Alemanha. Em frente à escultura, aos poucos, foi se formando um outro memorial – fotos, objetos, malas, fitas, brinquedos, deixados anonimamente por parentes das vítimas do holocausto. Também ali há uma pequena mesa com textos, em várias línguas, inclusive em português, protestando e pedindo a retirada do monumento.
Segundo os contrários ao monumento, há naquele local uma grande mentira posta. A Hungria aceitou a invasão alemã e o governo da época colaborou com a matança dos judeus húngaros. O panfleto diz que o governo sugere “que o estado húngaro não tem nenhuma responsabilidade pelo genocídio que se seguiu à ocupação alemã, incluindo a deportação de quase meio milhão de cidadãos húngaros (em sua maioria judeus, mas também ciganos, homossexuais e dissidentes) para os campos de extermínio nazistas” e prossegue “Este monumento é uma mentira que atende a uma intenção política”.
Argumentam que as tropas alemãs foram recebidas, em 19 de março de 1944, com buquês ao invés de balas e essa postura do governo à época, manteve intacta a administração federal que “por sua vez, organizou e executou, de forma entusiasmada e eficiente, as deportações em massa, superando até mesmo, as expectativas alemãs”, dando continuidade ao que já vinha acontecendo desde 1920 com a aprovação de leis antissemitas cada vez mais rigorosas, despojando os judeus da Hungria de mais e mais direitos. Segundo conta a História, a Hungria enviou para os campos de extermínio 20 mil judeus alegando que “não puderam comprovar sua cidadania húngara”, além dos milhares que foram assassinados ali mesmo no inverno de 1942-1943.
A comunidade judaica da Hungria é uma das maiores da Europa e se preocupa com o aumento do preconceito antissemita. Visitamos a Grande Sinagoga de Budapeste ou Sinagoga da Rua Dohány, construída em meados do século XIX, entre os anos 1854-1859, em estilo romântico, combinando elementos neomouriscos e neobizantinos, pelos arquitetos Lajos Forter e Frigyes Feszl.
A Grande Sinagoga é um símbolo do Judaísmo na Hungria. Ao lado há um pequeno Cemitério Judaico onde foram enterradas as pessoas que ficaram confinadas naquele bairro transformado em um gueto. Os mortos identificados ganharam uma lápide com seu nome.
Há ainda uma belíssima escultura representando um Memorial aos Mártires Judeus – um chorão de aço em que estão penduradas milhares de folhas, em cada uma delas o nome de um judeu vítima do holocausto. As que não possuem inscrição lembram as vítimas desconhecidas.
Dentro da grande Sinagoga há um museu judaico e nos chamou a atenção uma exposição de cartões postais com mensagens positivas de viajantes aos que ali haviam permanecido. Mais uma vez nos deparamos com os efeitos da linguagem – o objetivo das mensagens era dissipar o medo daqueles que ainda não haviam embarcado nos trens que levavam as pessoas para os campos de concentração nazistas – os cartões registram estar em lugares agradáveis, acolhedores, que não tivessem medo.
Budapeste com suas incríveis belezas, povo hospitaleiro, marcou-nos muito. Instigou-nos a reflexão sobre questões como a condição humana, o uso da linguagem e, consequentemente do simbólico; dos sentidos do tempo – se é que ele existe, ele próprio, ou apenas como um elemento da narrativa, posto que, naquele momento, sem ter vivido os fatos históricos ali descortinados, era como se os tivéssemos presenciado também.

Nelci Veiga Mello
Academia Mourãoense de Letras

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