terça-feira , 19 junho 2018
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AGENOR KRUL, UM GRANDE EDUCADOR.

Ele agiu, refletiu e registrou suas
ações e seu pensar transmitindo-os a outros e transformando o agir-pensar-agir desses outros. Por sua vez, esses outros acrescentaram seus próprios agires-pensares ao agir-pensar recebido. Isso se deu sucessivamente, de um grupo a outro, estabelecendo minuciosas filigranas de agires e pensares novos que se encadearam formando uma teia que tomou conta do mundo. E tudo se transformou. Então ele percebeu a importância de um ser que age e pensa a ação para transformá-la e se transformou em um educador. (dibs).


No interregno de 1985 a 1997 a educação brasileira foi palco de múltiplas reformas decorrentes da redemocratização do país e do fim do regime militar, que durara vinte e um anos. Esta fase da história da educação brasileira foi intensamente vivida por estudantes e professores em geral e, principalmente, por aqueles que militavam no ensino superior.
Tive a honra de participar deste processo ao entrar, em 1983, na primeira turma de Licenciatura Plena em Pedagogia, na Facilcam. Naquele ano a Facilcam passara a oferecer Licenciaturas Plenas em Geografia, Letras e Pedagogia. As Licenciaturas Plenas substituíam os primeiros cursos oferecidos pela instituição: Estudos Sociais, Letras e Pedagogia, todos de licenciatura curta.
Entrei como estudante e permaneci, posteriormente, como professora e vivi, juntamente com inúmeros companheiros, a ansiedade decorrente dos debates e tentativas da construção de uma LDBEN cidadã, que transformasse tanto o sistema, quanto os processos e metodologias da Educação brasileira, sucateados pelo regime político anterior, até a aprovação da LDBEN 9394/1996.
Neste caminhar tive o privilégio de trabalhar com pessoas importantes para a história da educação mourãoense. Pessoas que fizeram a diferença na vida de todos os estudantes da COMCAM, não só de Campo Mourão. Isso se deu em razão de serem engajadas, compromissadas, despidas de vaidades, responsáveis e abertas ao diálogo. Exerciam a cidadania defendendo aquilo em que acreditavam: uma educação laica, gratuita e de qualidade para a cidade e a região.
Algumas dessas pessoas permanecem conosco e ainda desenvolvem atividades fundamentais para a Educação de Campo Mourão e região. Outras já se foram, mas continuam a iluminar o caminho dos que ficaram.
As pessoas às quais me refiro administraram a Facilcam e a Fecilcam no período em que dela participei como estudante e como docente. Foram elas: Professor Bogdan, Hodniuk (In memoriam), Dr. Antonio Carlos Ribas Malachini, Professor Agenor Krul (In memoriam), Professor Marcos Erhardt, Sinclair Pozza Casemiro, Rubens Luiz Sartori (In memoriam) e Antonio Carlos Aleixo, ex-estudante da instituição e atual Reitor da Unespar, exercendo sua segunda gestão, depois de duas gestões como Diretor da Fecilcam.
Exerci o cargo de Coordenadora de Ensino, Pesquisa, Extensão e Pós-graduação da Fecilcam nas gestões de Agenor Krul e de Antonio Carlos Aleixo.
Guardo com carinho as memórias dos dias e das pessoas com as quais tive a honra e o privilégio de conviver no processo de me tornar educadora.
Este texto é uma homenagem póstuma a uma dessas pessoas – o Professor Agenor Krul – meu professor na graduação em Pedagogia e na pós-graduação em Filosofia (Valores Fundantes da Civilização Ocidental), meu amigo, companheiro de trabalhos na Fundação Horácio Amaral de Estudos e Pesquisas, meu chefe direto na Coordenação de Ensino, Pesquisa, Extensão e Pós-graduação da Fecilcam, colega de classe no doutoramento em Humanidades e companheiro de lidas na Academia Mourãoense de Filosofia e na Academia Mourãoense de Letras.
Filho de João e Josefa Krul e membro de uma numerosa família – quatro irmãos e duas irmãs – Agenor Krul nasceu em Ponta Grossa a 13 de agosto de 1946. Foi seminarista em Ponta Grossa e cursou Faculdade de Filosofia, na PUC em Curitiba, curso que concluiu em Dezembro de 1969. No quarto ano da Faculdade de Filosofia, iniciou os estudos de Teologia, dos quais desistiu e retornou para a casa de sua família em Dezembro de 1969.
Em 1970 veio para Campo Mourão, onde conheceu sua futura esposa, Janina Izabel Krul. Tiveram dois filhos, Evandro Luiz e Fabiano e quatro netos.
Desde que chegou a Campo Mourão Agenor Krul exerceu funções e cargos no magistério ou vinculados ao magistério. Conforme narrava, foi um dos primeiros professores contratados para atuar na Facilcam e o último dos presidentes da Fundação de Ensino Superior de Campo Mourão- Fundescam– extinta com a estadualização da Facilcam, em 1987. Atuou na vice-direção da Facilcam para a gestão 1985-1989, que teve como Diretor o Dr. Antonio Carlos Ribas Malachini. Nesse período era também o Presidente da Fundescam. Ambos conseguiram agregar apoio de professores, estudantes, conselheiros da Fundescam e políticos da região, dentre outros membros da sociedade mourãoense e regional para a estadualização da Facilcam. O que se deu em 1987.
Na gestão 1989-1993 concorreu para a Direção, tendo o Dr. Antonio Carlos Ribas Malachini como candidato a vice-diretor. Foram vencedores novamente, mas o Dr. Antonio Carlos Ribas Malachini, que também era Promotor de Justiça, transferiu-se com a família para Curitiba, sendo sucedido na vice-direção da Facilcam pelo professor Marcos Erhardt.
Agenor Krul atuou na Fecilcam até o ano 2.000, quando se aposentou. Havia aceitado o convite para lecionar na Faculdade Integrado e colaborou na organização da Secretaria acadêmica desta instituição. Na sequência foi convidado também a assumir o cargo de Diretor Academico-pedagógico daquela instituição, mas já não se sentia em condições de prosseguir atuando, dadas as suas condições de saúde. Permaneceu no Integrado até 2001, quando foi submetido à primeira e segunda das suas três cirurgias cardíacas.
De gestos calmos, voz pausada e que raramente saía do tom moderado, passos lentos, como quem estivesse sempre caminhando e refletindo, Agenor Krul foi amigo de grande parte dos que tiveram o privilégio de tê-lo como professor. Amante da Filosofia, da História, da Literatura e da música clássica, era um professor que impunha respeito pelo seu jeito de ser e agir e pela extensão dos conhecimentos que dominava. Os que não o conheciam chegavam a temê-lo, dada a sua seriedade. Costumava dizer o que pensava, agradasse ou não ao interlocutor. Tinha um agudo senso de justiça que sempre exercitou.
Batalhador incansável, ao assumir a direção da Facilcam na gestão 1989-1993 sabia que havia muito a ser feito. Nessa fase de sua história a instituição se compunha de três alas construídas em alvenaria e algumas salas de aula de madeira – os famosos galinheiros (era assim que os estudantes as denominavam). Embora a procura pelos cursos aumentasse significativamente com a estadualização, a instituição não tinha como expandir o número de vagas para os estudantes, pois não havia espaço físico para abrigá-los, nem professores suficientes para atendê-los. Além disso, havia a cobrança da sociedade para que a instituição expandisse o número de cursos.
As salas de aula de madeira, apesar da constante manutenção, estavam envelhecidas e já não ofereciam qualquer conforto aos estudantes e professores, de tal forma que durante a distribuição das turmas dos diversos cursos, no espaço físico da instituição, ninguém queria ir para aquelas salas, o que obrigou a Fecilcam a solicitar o empréstimo e a utilizar algumas salas de aula do Colégio Estadual. O empréstimo das salas do Colégio Estadual também visava à redução do número de estudantes por turmas, que naquele período se aproximava de cem, principalmente nos primeiros anos.
Consultadas as instâncias representativas de professores e estudantes, o Diretor Agenor Krul decidiu-se por investir na ampliação do espaço físico – não sem ter enfrentado muitas críticas por essa opção – considerando que sem essa medida todos os demais projetos ficavam comprometidos pela falta de espaço. No que estava certo.
Ao final de sua gestão a instituição tinha dobrado o número de salas de aula, contratado novos professores, já conseguia oferecer alguns cursos de especialização e estava pronta para expandir-se em direção aos anseios da sociedade regional. Além disso, conseguira a aprovação do primeiro Plano de Carreira para docentes e funcionários da instituição e foi o primeiro Diretor da Fecilcam a planejar a implantação do regime de Tempo Integral de Dedicação Exclusiva, o TIDE – para os docentes. Com essas medidas já era possível vislumbrar novos caminhos.
Dadas às necessidades daqueles dias, com prazos definidos para que as prefeituras qualificassem seus professores com a formação mínima e para que efetuassem concursos para a contratação de pessoal, conforme as exigências da Constituição de 1988 e da LDBEN 9394/96, o Professor Agenor pensou uma fundação que pudesse desenvolver atividades de estudos, pesquisas e extensão e até mesmo pós-graduações conveniadas, visando colaborar com as prefeituras da região da COMCAM, então em franca demanda por esses serviços. Assim nasceu a FHEPE – Fundação Horácio Amaral de Estudos e Pesquisas. A FHEPE foi uma fundação sem fins lucrativos, mantida pela doação de serviços e recursos financeiros de seus filiados e por pequenos valores auferidos com as atividades que desenvolvia. Seus membros organizaram e realizaram muitos concursos para as prefeituras da região da COMCAM. Essa atividade gerava pequenos rendimentos que eram investidos em sua manutenção. Caso houvesse um rendimento extraordinário que superasse as necessidades da manutenção da instituição – o que raramente acontecia – era rateado igualmente entre os participantes das atividades, ou investido na compra de livros para a biblioteca mantida pela instituição.
A FHEPE foi um sonho de muitos que perdurou por aproximadamente dez anos. Com a saúde do Professor Agenor já debilitada e a ausência de muitos membros da instituição cursando mestrados ou doutoramentos, suas atividades foram encerradas.
Mas a chama do amor ao estudo e à pesquisa jamais se apagou e foi daí, do interesse dos professores Agenor Krul e Assabido Rhoden, e do incentivo do Professor Pós-Doutor Leonardo Prota, Professor de Filosofia da UEL e Diretor do Instituto de Humanidades, de São Paulo, que nasceu a Academia Mourãoense de Filosofia. Foi também pelo esforço de Agenor e Assabido, somado ao apoio de Amani Spachinski de Oliveira que a Academia de Filosofia produziu sua revista ARCHÉ SOPHIAS.
Acompanhei a trajetória do professor Agenor Krul desde que fui representante dos estudantes no Conselho Diretor da Facilcam (1984/1986), da qual ele era Presidente, e testemunhei seus esforços em favor do ensino superior público, gratuito e de qualidade, na instituição.
Agenor era um visionário da Educação, dedicou sua vida a educar.
Foi na gestão do Dr. Antonio Carlos Ribas Malachini e com Agenor Krul na vice-direção que a Facilcam foi estadualizada. E foi na gestão de Agenor Krul (1989-1993) que a Facilcam se tornou a Fecilcam, preparando o caminho para a Unespar de hoje.
Agenor Krul tinha consciência de que o sucesso do trabalho educativo se deve a multiplicação dos esforços, por isso exercia uma liderança agregadora. Sabia também que no cômputo geral da totalidade necessária, o que conseguisse deixar de legado seria apenas uma parte. Talvez por isso mesmo cuidou e dedicou-se tanto que deixou um imenso legado para Campo Mourão e região. A maior parte dos professores da rede publica estadual e municipal teve a sua contribuição no processo formativo.
A partir de 1995 cursamos o mesmo doutoramento em Humanidades com a Universidad de Léon, Espanha, parte dele desenvolvido na ULBRA de Canoas, Rio Grande do Sul.
Por quatro anos passamos as férias de Julho e Janeiro – 60 dias por ano – trancados numa sala de aula, de sete e meia da manhã às dezoito horas, ouvindo nossos professores em palestras e/ou cursos. Jamais ouvi de Agenor outra reclamação que não fosse a saudade da esposa e dos filhos. Tampouco vi ou ouvi qualquer demonstração de cansaço.
Era um entusiasta das Humanidades, um humanista convicto. Um educador consciente do papel do Humanismo e das Humanidades na transformação dos homens e da sociedade. Não pode fazer a conclusão e defesa de sua tese no tempo hábil em decorrência de problemas de saúde. Conseguiu concluí-la para publicá-la em livro em 2016.
Dele guardarei o exemplo do entusiasmo, do interesse, da dedicação, da necessidade da reflexão cotidiana e do desprendimento. E as lembranças da convivência orientadora, gentil e amiga.
Amigo de todas as horas, foi sempre um profissional sério, dedicado, competente e um estudioso que legou a muitos o amor pela profissão de educador. Deixa um grande legado e um vácuo impossível de ser preenchido.
Dele guardaremos as lições de vida e o grande amor à educação.
Há muito a relatar para demonstrar a essência deste ser humano denominado Agenor Krul, mas encerro meu relato utilizando as palavras que ele mesmo disse numa entrevista que concedeu, em 2010, ao amigo e confrade da Academia Mourãoense de Letras, Ilivaldo Duarte: “A profissão de professor é uma das mais nobres entre todas as profissões. Nunca devemos deixar as coisas como as encontramos, mas sim melhores do que estavam”. Ele deixou as coisas melhores que elas estavam quando chegou.
Consta no Gênesis que somos feitos do pó e ao pó retornaremos. Essa é a nossa única certeza. E como talvez nossa argamassa seja composta por pó de estrelas, o Céu é o limite para nossas buscas. Não nos contentamos com a finitude da carne e buscamos caminhos para elevar nosso espírito, preparando nosso retorno ao encontro do Supremo Bem e aos braços do Senhor de todas as coisas. Agenor Krul fez isso durante a sua vida e partiu no dia 03 de Janeiro de 2018. Como amava poesias, dediquei-lhe um poema:

VAI, AMIGO!

Vai, amigo!
Trilhe novos horizontes,
Agora sem os limites do corpo,
Com a alma livre, leve e solta na imensidão do infinito.
Vai, amigo!
Desfie as nuvens com mãos de algodão.
Conte as estrelas com os olhos de luz.
Visite o universo com a calma de seus passos,
Sabendo que tens o tempo infinito.
Dialogue com Senhor dos Dias
Sobre a Filosofia.
Conte-lhe de seus planos.
Fale do Numinoso
E do Mysterium Tremedum
Que dobra os joelhos dos homens
Que sentem a Sua presença.
Toque a corneta dos anjos, em regozijo
Pela vida que lhe foi dado viver.
Vai, amigo!
Voe com os anjos, com asas de cetim
E pés de seda.
Deixe fluir o Transcendente,
E alcance finalmente o Inefável
E descanse em paz.
Vai, amigo!

Dirce Bortotti Salvadori, escritora
Cidinha Coletty, jornalista.

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