A TENTAÇÃO NAS RUAS.

Nos anos finais da década de 1950, o carnaval era um tempo de reclusão para a minha família. A avó fazia o que lhe fosse possível para não nos deixar sair às ruas. Temia que nos deparássemos com os demoníacos comboios de foliões que infestavam a cidade. Naqueles tempos, o Carnaval para ela, assim como para a maioria dos católicos tradicionais da zona rural e das pequenas cidades do interior, era sinônimo de infernal, demoníaco, pecaminoso, o próprio caminho para o inferno.


Jamais soubemos como eram as matinês de carnaval no clube da cidade. Nossa imagem do carnaval foi construída pelas fotos dos desfiles e bailes carnavalescos que ilustravam as páginas das revistas Manchete e O Cruzeiro, que meu pai comprava. Sempre que os adultos se descuidavam de nós, nos escondíamos e passávamos o tempo entretidas olhando as fotos nas revistas, embevecidas com o brilho das pedrarias, lantejoulas e purpurinas daquelas fantasias maravilhosas.

Algumas vezes, quando seguíamos com a avó para a Igreja, ouvíamos ao longe o som das bandas que alegravam as tarde carnavalescas de crianças e jovens no clube da cidade. Tínhamos consciência de que aquele não era o nosso mundo, nosso universo de vivência se compunha de outros elementos e nossa vida girava em torno das normas da religião e da fé.
Naqueles tempos de normas religiosas mais conservadoras, também nos assustavam as homílias chamejantes de nosso pároco, apontando os pecados das festas momescas. Era comum que ele negasse as cinzas penitenciais, na quarta-feira, àqueles comparecessem para recebê-las com alguns confetes perdidos em meio aos cabelos.
Por mais que as pessoas cuidassem para isso não acontecer, me lembro de uma vez que aconteceu com uma jovem. Quando ela abaixou a cabeça para receber as cinzas, o padre vislumbrou alguns confetes nos seus longos e negros cabelos. Em tempos de tanta pudícia, fora um escândalo, pois além de negar as cinzas a esta jovem, o padre solicitou que se retirassem da Igreja todas as pessoas que participaram dos bailes carnavalescos nos dias anteriores, sob a alegação de que elas cometiam o grande pecado de acender uma vela para Deus e outra para o diabo. Naquele dia, um silêncio tenso e profund o caiu como uma densa nuvem sobre o ambiente, congelando os gestos e qualquer outra manifestação por parte de todos os presentes. Ninguém se moveu, ninguém arredou pé do lugar.
Mas minutos depois, quando o padre deu prosseguimento ao ofício religioso, era possível perceber-se que alguns paroquianos e paroquianas se esgueiravam discretamente e silenciosamente se afastavam da fila que se encaminhava ao altar para receber as cinzas.
Percebíamos pelos olhos vivos e o sorriso irônico que discretamente pairava no rosto da avó que ela concordava e endossava a atitude do pároco. Assustadas, minha prima e eu resolvemos manter silêncio acerca do acontecido, mas sabíamos que aquela seria a notícia do dia quando chegássemos a nossa casa. Certamente, entre os seus, a avó daria largas à sua aprovação ao pároco. Dito e feito!
Num domingo de carnaval, em 1958, a avó resolveu ir à Igreja acompanhada por mim e por minha prima. Ela nos tomava, a cada uma, pela mão e como se temesse nos perder pelo caminho, nos arrastava a passos rápidos pelas ruas da cidade. Chegando à Igreja, nos colocava a cada uma de um lado e sentava ao meio, de modo a não permitir que nos comunicássemos durante o ofício religioso. Qualquer tentativa de burlar a sua vigilância para estabelecer uma conversa era causa para um aperto no braço. A insistência resultava em um dolorido beliscão.
Naquele dia, ao invés de sairmos de sua casa, saímos da casa de meus pais e o percurso que fizemos foi diferente daquele costumeiro e tivemos que passar ao lado de uma igreja de outra denominação religiosa, que se instalara na nossa rua. A avó sempre evitara aquele percurso por temer encontrar-se com algum religioso daquela congregação. Eram dados ao proselitismo religioso, coisa que a avó abominava em outra fé que não a sua. Naqueles tempos dos ofícios católicos desenvolvidos em latim, num país com a maioria da população analfabeta, a Bíblia era considerada como leitura apropriada apenas aos iniciados nos mistérios da fé e a eles cabia interpretá-la para os demais. Talvez por isso provocasse tanta estranheza e mesmo crítica entre os católicos o hábito que possuíam pessoas de outras congregações religiosas de carregar suas Bíblias sempre que compareciam aos cultos.
Quando caminhamos uma quadra e estávamos em frente à igreja dita “dos crentes”, um caminhão com a carroceria carregada de foliões fantasiados passou por nós com as pessoas cantando e gritando. Imediatamente a avó nos fez esconder os olhos com as mãos pra não ver “aquela coisa do demônio”. Ato contínuo, o pastor dos “crentes”, que estava no portão da sua igreja, cumprimentou a avó, convidando-a a entrar para acompanhar o culto. A reação da avó não se fez esperar: franziu os olhos, enrugou a testa, ergue os punhos e gritou: – Te esconjuro!! , puxando a mim e a minha prima pelos cabelos, já que nossas mãos eram utilizadas para cobrir os olhos.
Saímos rapidamente daquele local, enquanto a avó esconjurava o pastor e o caminhão de foliões e nos incitava a andar de cabeça baixa pra que não víssemos aquelas tentações. Enquanto olhávamos ao redor de soslaio, por entre os vãos dos dedos, a prima e eu segurávamos o riso. Não olhamos para trás, mas tínhamos certeza de que o pastor, no portão de sua Igreja, ria a mais não poder. Também não contamos para a avó que o caminhão de foliões era dirigido por um homem transparente, cujos tênues e diáfanos contornos pareciam ser traçados com uma levíssima substância vermelha. Ao olhar por entre os dedos, eu e a prima pudemos ver todas as partes da cabine através de seu corpo, que apenas se delineava naquele espaço. A única coisa que parecia ter a aparência sólida, naquele ser, eram duas protuberâncias escuras que lhe nasciam uma de cada lado da cabeça, logo no início dos cab elos. Não contamos pra avó porque isso poderia matá-la de medo e tristeza.

Dirce Bortotti Salvadori
Escritora, membro da Academia Mourãoense de Letras

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