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A HERANÇA

Veja bem, ser filho de mãe solteira não é demérito algum.
Desde que o mundo é mundo isso vem ocorrendo.
Os preconceitos já foram bem mais acentuados, hoje nem tanto.
Retrato aqui, pois faço parte orgulhosamente, fruto dessa concepção.
Ao nascer, me deram o sobrenome Ribeiro.


A minha mãezinha biológica assina Felix e o meu genitor Oliveira.
Quem me criou foi a minha ternura eterna e nunca deixará de ser, a minha avozinha materna, dona Benedicta, a quem não canso de enaltecer sempre, e ela por sua vez, assinava o sobrenome Jesus e o seu esposo Silva, meu avô, que morreu precocemente em terras mineiras.
As minhas duas irmãs por parte de mãe, assinam Greco.
Até aí são coisas de família mesmo, até os Cartórios de Registros Civil no passado, também têm lá a sua culpa.
Mas, como receber uma herança familiar numa confusão dessas: Ribeiro, Felix, Oliveira, Jesus, Silva e Greco?
Deve ser mais dor de cabeça do que propriamente bens e dinheiro a receber.
Desde pequeno a gente aprende que a pessoa tem três chances na vida: ou nasce em berço de ouro, ou casa com alguém rico ou ganha na loteria.
Como o destino não me presenteou com nenhuma das três opções, o jeito e a receita são a mesma de todos: trabalhar duro, sem choramingar.
E não é que a danada da sorte existe?
Lá do sul de Minas Gerais, da cidade de Brazópolis veio um telegrama em meu nome, e eu achando que já nem mais existia esse tipo de comunicação; pois, com a vinda da internet e outras parafernálias, isto já tinha sido abolido.
Notícia boa é boa em qualquer hora e tempo.
Nas poucas palavras do dito telegrama, assim estava escrito: “Sr. Vicente Ribeiro; tio solteiro e rico deixa-lhe herança por testamento. Favor entrar em contato urgente no seguinte endereço…”.
Pensei, será que é pegadinha? No mundo de hoje em que vivemos, cruel e cheio de maldade e trapaça. Será, meu Deus?
Nunca soube de parente afortunado pelas bandas das terras de Tiradentes…
Mas, ansioso, desconfiado, trêmulo e suando frio, liguei conforme determinava o telegrama, e do outro lado da linha, a moça atenciosa pediu para eu confirmar alguns dados, aí que o bicho vai pegar, pensei: com tantos sobrenomes, minha Nossa Senhora!
Fui repassando tudo o que ela me pedia.
De repente, uma pausa na ligação: -Sr. Vicente! Confirme o nome completo do senhor e a cidade onde nasceu e mora.
Respondi novamente à atendente com a voz balbuciante: meu nome é Vicente Estanislau Ribeiro, nasci e resido em Jacarezinho, Paraná.
Do lado de cá da linha, estufei o peito e respirei profundamente na expectativa da grande mudança na minha vida.
Hum! Lamento o transtorno, houve um grande engano, meu senhor!
O nome que estamos procurando é Vicente Ribeiro, sem o “Estanislau” e a cidade é “Jataizinho” e não Jacarezinho.
Educadamente, a moça pediu desculpas pelo contratempo e equívoco dos nomes quase homônimos e de cidades semelhantes do mesmo estado e eu pasmado e frustrado, desliguei o telefone, vendo a minha tão sonhada esperança ir embora como chegou.
Naquele momento fiquei igual ao “O pensador”, a famosa escultura de Auguste Rodin, com a mão elevada e com o punho fechado apoiando o queixo. Olhar profundo, distante, perdido… É assim que me encontrava.
Crise existencial? Longe de mim!
Com mais calma e matutando, comecei a rir sozinho.
Olhe, mesmo que eu fosse o felizardo no dito testamento, até eu provar todo esse arsenal de sobrenomes, quem é quem, de onde veio e tudo mais, nem mesmo o pai da evolução (Teoria das Espécies), o naturalista britânico Darwin teria a facilidade para desvendar todo esse imbróglio familiar, a “Teoria dos Sobrenomes”.

  • Vicentinho é Secretário de Planejamento do Município de Jacarezinho, PR.

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